1. “Rezar é cansativo”
Objecção antiga. Rezar é uma luta (Ex 17,8-16; Gn 32,23-33), na qual os olhos se consomem (Sl 11,123) e a garganta seca (Sl 22.16). É uma objecção real, porque na oração o corpo impõe-se, faz-se sentir em toda a sua materialidade. Foi cansativo em todos os tempos e é ainda mais no nosso, porque a oração comporta condições contrariadas pelos actuais ritmos da vida. Quer silêncio. Quer solidão. Quer inactividade. Mas tudo à volta é excesso de palavras, tarefas e sons desafinados.
Ultrapassa-se esta dificuldade com a decisão de se colocar perante a Presença silenciosa a invisível. “No esforço que cada um enfrenta sozinho diante de Deus é de grande conforto a certeza de estarmos rodeados pela comunhão dos santos do Céu e da terra. Os que nos precederam no caminho da fé e os irmãos que nos rodeiam todos os dias garantem-nos uma oração incessante, capaz de suprir os nossos momentos de dificuldade ou de vazio espiritual: esta é uma grande consolação, um estímulo a não abandonarmos a fadiga da oração”.
2. “Não tenho tempo”
É a dificuldade mais comum, quase como um refrão: “Não tenho tempo. Não tenho tempo”. E em parte é verdade, sobretudo na vida urbana, marcada pela velocidade, ritmos laborais frenéticos, compromissos múltiplos, dispersão dos espaços. Mas também é uma má desculpa: quanto tempo se passa diante da televisão ou na Internet? Afinal, encontramos sempre tempo para o que nos interessa. “Aquele que afirma que não tem tempo para rezar é um idólatra” porque o tempo é que o domina, esquece-se dos primeiros mandamentos, que implicam saber coordenar o tempo.
Solução. Primeiro: ter consciência de que “a escuta de Deus é tão séria como o trabalho e, portanto, não se podem dedicar à oração apenas retalhos de tempo”. Segundo: Saber que oferecer tempo a Deus é dar-lhe o bem mais preciso possuído na terra; dar tempo à oração é dar “um pouco da própria vida pelo Senhor”. Terceiro: É preciso estabelecer tempos determinados e ser-lhes fiel, de modo a rezar não só quando temos vontade ou quando nos sentimos emocionalmente induzidos a fazê-lo.
3. “Distraio-me muito”
É a objecção natural, porque ter distracções faz parte da psique humana. É preciso muito exercício para aprender a concentrar-se, unificando os pensamentos, a mente, o coração e o corpo. Ora, na oração, aparecem as preocupações, os rumores, as imagens, os sons da vida do dia-a-dia… Por vezes, essas coisas emergem imperiosamente logo que entramos na condição nas condições da oração, principalmente a solidão e o silêncio.
Como fazer? Poderá ser preciso lutar contras as distracções, mas sem fazer disso uma obsessão. Muitas vezes é preciso saber integrá-las na oração, “colocá-las nas mãos de Deus” (1 Pd 5,7). As distracções podem ser transformadas em ocasião de oração. E há que evitar dois erros comuns: 1) Pensar que é preciso “criar o vazio em si próprio”. Na verdade, o silêncio requerido “não é pura negatividade, mas sim abertura à escuta da Palavra e à presença de Deus em nós”; 2) Pensar que pode vencer as distracções para sempre. O importante é “não perder a coragem, não deixar de rezar”.
Na próxima semana:
4. “Não sou constante”
5. “Trabalhar já é rezar”
Este texto é adaptado das páginas 96 a 107 de “Porque rezar, como rezar”, de Enzo Bianchi (ed. Paulus). Tendo consciência dos motivos pessoais que habitualmente são apontados para não rezar, cada um poderá prosseguir com mais determinação na sua caminhada espiritual. A oração, diz Bianchi, é o nosso desejo de amor.
J.P.F.
