Saúde Uma vez por mês o Correio do Vouga dedica uma página a questões da saúde, especialmente a pensar na população adulta. Nesta edição, um problema que afecta cada vez mais portugueses: o colesterol elevado. Textos do médico e diácono José Carlos A. Costa.
Falar de colesterol hoje é tão vulgar que até parece descabido trazer este assunto à reflexão. Porém, é necessário, tendo em conta o número de óbitos que ocorre todos os anos devido à elevada percentagem de colesterol, cerca de 33% dos óbitos totais. Se a esta percentagem acrescentarmos as mortes por acidentes cardiovasculares, como os enfartes do miocárdio, por influência do colesterol excessivo, a percentagem é bem maior.
O colesterol, em níveis muito elevados, mata. Mas quando baixa para valores muito reduzidos também compromete a saúde. E quando a mesma pessoa para além do colesterol elevado tem peso a mais, a probabilidade de ocorrer um acidente cardíaco e/ou cerebrovascular fatal aumenta mais ainda.
É consensual afirmar que a doença aterosclerótica é a principal causa de morte nos países desenvolvidos, incluindo Portugal. Não se fala de hipercolesterolemias em países com problemas de sub-alimentação, mas somente onde a abundância de alimentos existe e o hábito de comer exageradamente e de forma desequilibrada é regra.
Função do colesterol
O colesterol, de uma forma menos técnica e entendível, significa gordura no sangue. Numa perspectiva positiva, o colesterol é uma reserva de energia do organismo e é necessário para a actividade funcional dos órgãos. Constitui 17% do peso seco do cérebro. É precursor das hormonas esteróides, dos ácidos biliares, da vitamina D e funciona como um importante componente estrutural das membranas celulares.
O colesterol é insolúvel na água. Estas gorduras unem-se às proteínas e dirigem-se aos tecidos do organismo. Por isso, também são chamadas lipoproteínas, como acontece ao LDL e ao HDL.
A maior parte do colesterol existente no organismo é produzida e não ingerida. Porém, quanto mais gordura tiver a alimentação, maior será a percentagem de colesterol produzido pelo organismo através dos processos metabólicos do fígado.
O fígado sintetiza cerca de 1g de colesterol por dia, o equivalente à quantidade que o organismo precisa para o exercício das suas funções vitais. Isto implica que uma pessoa que esteja na cama sem fazer esforços, não precisa de ingerir gordura.
A gordura que deve ser ingerida nas refeições deverá ser equivalente àquela que é gasta durante as actividades quotidianas. Uma pessoa que se mexa pouco deve ingerir pouca gordura. A pessoa que além de ter uma actividade física e mental normais ainda praticar desporto deverá ingerir um pouco mais de gordura insaturada, sendo a de origem vegetal aquela que reúne melhor qualidade biológica. É conveniente que haja consciência de que toda a gordura ingerida e que não é gasta em actividade física vai aumentar os níveis aceitáveis de colesterol no sangue.
“Bom e mau colesterol”
Quando pretendemos saber o nosso perfil lipídico, ou seja, como estamos de gordura no sangue, não basta olharmos para o Colesterol Total. É conveniente olharmos para o lipidograma no seu conjunto. A melhor forma de avaliar a gordura do sangue é confrontar os valores referenciados no exame de análises laboratoriais relacionados com os quatro principais elementos constituintes: Colesterol Total (CT), Triglicerídeos (TG), HDL e LDL. Estas quatro gorduras devem ser observadas em conjunto, dando especial atenção ao valor do LDL. O Colesterol Total pode estar abaixo de 190 mg/dl, mas o LDL apresentar uma percentagem elevada e exigir intervenção.
É comum ouvir as pessoas referir significados negativos e outros positivos ao colesterol, designando-os de colesterol bom e colesterol mau. O colesterol que se encontra dentro dos padrões recomendados não é mau. Os lípidos só trazem perigo para a saúde quando sobem para níveis indesejáveis, nomeadamente o LDL, que propicia a formação de placas aterogénicas ou ateromas (substâncias granuladas formadas por gordura), que podem entupir e danificar os vasos sanguíneos. Em termos gerais, uma pessoa adulta deve ter o Colesterol Total inferior a 190 mg/dl; os Triglicerídeos abaixo dos 150 mg/dl; o LDL inferior a 100 mg/dl e o HDL superior a 50 mg/dl.
Existem ácidos gordos pouco saturados porque não sofreram alteração nas suas estruturas de base. Estes tornam-se menos prejudiciais à saúde, principalmente aqueles que não foram submetidos a temperaturas elevadas durante a confecção das refeições. Por outro lado, aquelas gorduras que são várias vezes utilizadas nas frituras ou submetidas a elevadas temperaturas tornam-se muito saturadas e libertam toxinas nocivas, tornando-se muito prejudiciais. A perigosidade destas gorduras aumenta quando são provenientes de alimentos de origem animal. Será uma medida de restrição saudável se tais gorduras forem excluídas da alimentação.
Recuperar o pecado da gula?
Hoje já não se fala do pecado da gula, não sei se por desconhecimento ou por ter deixado de ser necessário divulgá-lo. Talvez se tenha perdido o sentido pedagógico que a teologia do pecado da gula encerrava.
Não será hoje um pecado moral comer mais do que precisamos, estando a comprometer a saúde e, muitas vezes, a própria vida, contribuindo, desta forma, para a escassez de alimentos essenciais à sobrevivência de muitos seres humanos que nada têm para viver?
Como combater o colesterol?
Indiscutivelmente, a dieta e o exercício físico são as terapêuticas não farmacológicas mais adequadas no combate ao colesterol. Aliás, não existe outra forma. Os vegetais, a fruta e os cereais completos integram o grupo dos alimentos favoritos no combate ao colesterol excessivo.
Não se deve iniciar uma terapêutica farmacológica sem primeiro educar os hábitos alimentares e combater o sedentarismo. Não existe actualmente nenhuma terapia mais eficaz para baixar o LDL que o exercício físico. Basta uma marcha atlética diária de uma hora para atirar com os valores lipídicos para níveis desejados. Em alguns casos poderá ser necessário o uso de fármacos. A decisão terapêutica caberá ao médico.
Colesterol em resumo
O que é?
Colesterol é gordura no sangue
Quais os indicadores saudáveis?
Uma pessoa adulta deve ter o Colesterol Total inferior a 190 mg/dl; os Triglicerídeos abaixo dos 150 mg/dl; o LDL inferior a 100 mg/dl e o HDL superior a 50 mg/dl.
Como se previne o colesterol alto?
Com alimentação regrada e exercício físico: menos gorduras (e de preferência de origem vegetal) e mais vegetais, fruta e cereais completos; caminhar uma hora por dia. Sempre que o colesterol teime em não descer, é necessário recorrer à ajuda médica.
