Questões Sociais O mundo acha-se marcado por resquícios doentios de teocracia. Fala-se bastante da teocracia inerente ao fundamentalismo islâmico; mas também se pode falar de outras, tais como a idolatria do mercado e a da indignação. A idolatria do mercado já foi identificada há muitos anos; veja-se, por exemplo, o livro «A Idolatria do Mercado – Ensaio sobre Economia e Teologia», de H. Assmann e F. J. Hinkelammert, Editorial Vozes, S. Paulo, 1989. Aqui o mercado surge como verdadeira divindade, identificada com os interesses das classes dominantes, liderados pelas transnacionais, incluindo o mundo subterrâneo à margem da lei. As suas regras consideram-se absolutas, inelutáveis e, portanto, vitoriosas sobre todas as contestações; mais do que isso, até se refinam e reforçam com a contestação.
A idolatria da indignação verifica-se nos contestatários do sistema capitalista, dos governos e de tudo o mais que lhes desagrade. Muitos indignados são pessoas vítimas de injustiça. Outros são agentes que as instrumentalizam; entre estes agentes figuram inúmeros intelectuais, membros de confissões religiosas, forças políticas e sindicais, meios de comunicação social… Os indignados apresentam-se, em geral, como sobranceiros à realidade económico-social e como proprietários dos grandes valores éticos, dispensando-se de apresentarem soluções viáveis para a solução dos problemas; escudam-se no totalitarismo dos valores, misto de teocracia e axiocracia, como se isso bastasse para a solução de todos os problemas. «Metem no mesmo saco» os governos, eleitos democraticamente, e os capitalistas, mesmo quando aqueles fazem esforços quase sobre-humanos para limitarem os estragos causados por estes.
Os idólatras do mercado e da indignação têm como inimigo comum os governos. E, quanto mais os governantes lutam pela justiça e pelo bem comum mais parecem reforçar a aliança entre as duas idolatrias; na verdade, essa luta dos governantes é contestada pelos senhores do mercado, por afectar os seus interesses; e é contestada pelos senhores da indignação por não os afectar suficientemente. Tanto os senhores do mercado como os da indignação, marcados pelas respectivas idolatrias, não aceitam realidades contingentes, não divinas, como são os governos; realidades situadas na ordem terrestre, e procurando a justiça e o bem comum realmente possíveis. Como resultado, saem claramente vitoriosos os senhores do mercado; eles dominam a realidade, não precisam dos governos, transcendem-nos. E, quanto maior for a contestação dos indignados, mais pretextos encontram para aumentarem a sua opressão.
