“Conjugar” o Nobel da Paz no feminino

Em 2011, e de uma assentada só, o Comité de Atribuição do Prémio Nobel da Paz, resolveu premiar três mulheres: Ellen Johnson Sirleaf e Leymah Gbowee, ambas liberianas, além da activista do Iémen, Tawakkul Karman. Com esta distinção, o Comité Nobel, ampliava para 15 o número de mulheres que já foram galardoadas com o prestigioso Prémio, na categoria de Paz.

Confesso que a nível pessoal fiquei, a princípio, um pouco desiludido. Há algum tempo subscrevi uma campanha, promovida pela CIPSI, uma coordenação internacional de associações de solidariedade, e pela senegalesa ChiAma África, que propunha a atribuição do Prémio Nobel da Paz 2011 às Mulheres Africanas. Seria um prémio colectivo, a premiar os milhões de mulheres africanas que, diariamente, vão calcorreando o continente-berço da Humanidade, em busca de paz e dignidade. No fim de contas, o movimento de assinaturas não se revelou tão persuasivo ao ponto do Comité repartir o prémio por todas as mulheres africanas. Mas duas delas foram, para minha consolação, meritoriamente premiadas, na companhia de uma outra activista asiática, o que me permitiu constatar que a minha assinatura, afinal, não tinha sido em vão.

Mas quem são, então, as vencedoras do Nobel da Paz 2011? A mais conhecida internacionalmente é, sem dúvida, a presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, a primeira mulher que foi democraticamente eleita chefe de Estado numa nação africana. Lutadora pela paz e reconciliação nacional num país que sofreu uma sangrenta guerra civil, ela contou, na luta pelo fim dos enfretamentos bélicos na sua pátria, com o contributo de uma outra mulher, Leymah Gbowee. Provavelmente menos reconhecida internacionalmente, o papel de Leymah Gbowee na promoção da paz na nação liberiana não tem sido menos relevante. Muito pelo contrário, a sua ação tem sido preponderante na reivindicação dos direitos das mulheres em todo o ocidente africano. Se quisermos, Gbowee está, actualmente e com as devidas ressalvas na comparação, para os países africanos, como a sufragista Emmeline Pankhurst esteve para a Europa do final do século XIX, início do século XX.

Ambas as liberianas ladearão, na cerimónia de premiação, com Tawakkul Karman. Mais distante dos focos mediáticos, o Iémen tem, na jovem Karman (de apenas 32 anos de vida) uma defensora intransigente dos direitos da população em geral e das mulheres em particular. Na sua trajectória de vida, a activista tem tido um papel determinante na luta pelos direitos civis nos países muçulmanos, com maior relevo nestes últimos meses pela tentativa de levar ao regime autoritário do Iémen os “ventos de mudança” que têm soprado desde a “Primavera Árabe” deste ano.

Pelo que tenho lido do percurso biográfico das três laureadas de 2011, o prémio é perfeitamente justo. Lastimo somente que, na companhia de duas mulheres africanas e uma asiática, não estivesse uma mulher latino-americana, como por exemplo a fundadora da Pastoral da Criança do Brasil, Zilda Arns, a título póstumo. Contudo, regozijo-me porque o Comité Nobel está verdadeiramente decidido a alargar a, até agora diminuta, lista de mulheres premidas com o Nobel da Paz.

Acompanho anualmente a atribuição do Right Livelihood Award e, a título de curiosidade, mercê também das características específicas deste Prémio que é considerado o Nobel da Paz Alternativo, a sua relação de laureados tem incomparavelmente mais nomes femininos, ao longo dos 31 anos de existência, do que o centenário Nobel da Paz. Mas é razão de júbilo que o Comité Sueco-norueguês esteja a olhar cada vez mais para as acções das Mulheres que, por todo o Mundo, a cada momento, tentam construir um mundo mais justo.

No rescaldo desta atribuição, a par com a minha alegria pelas vencedoras do prémio, fica-me a esperança de que o primeiro Nobel coletivo seja, um dia, concedido às Mulheres Africanas, como paradigma de todas no chamado terceiro mundo. Ficará assim reconhecido como, na simplicidade de uma tabanka, ou num palácio presidencial, a intervenção das mulheres é exemplo de que Paz se “conjuga”, umbilicalmente, com o feminino.