Frente anti-governamental

Questões Sociais Pode afirmar-se que não existe nenhuma força política ou social que apoie o Governo, particularmente no esforço de saneamento financeiro; os partidos, em geral, só apoiam os «seus» governos…quando apoiam. Os partidos da oposição continuam no velho maniqueísmo de contestação sistemática. De entre eles, realça-se hoje o PS, ao contestar as medidas que, em maior ou menor grau, ele próprio adoptaria se fosse governo; aliás, o PSD e o CDS estão a aprovar medidas que, certamente, contestariam se fossem adoptadas por um governo do PS. Nada disto constitui novidade, numa democracia imatura; todos os governos democráticos têm sido contestados, com forte virulência, pelos Parlamentos, Presidentes da República, membros de confissões religiosas, grandes corporações públicas e privadas, interesses regionais e locais, meios de comunicação social, greves, manifestações de rua…

O governo actual, como os anteriores, é acusado sistematicamente de economicista, neo-liberal, «aluno bem comportado» na União Europeia, subserviente perante os grandes interesses económico-financeiros…; não se lhe perdoam os erros nem o facto de querer pagar aos credores. Os contestatários partem do pressuposto de que todos os governos democráticos têm sido intrinsecamente sado-masoquistas, uma vez que não resolveram todos os problemas do país «só porque não quiseram». Segundo os contestatários, os governos deveriam impor a sua vontade aos credores, dominar a «Troika» e até alterar o sistema capitalista mundial; os contestatários nem sequer põem a hipótese de os governantes «estarem no mesmo barco» em que estamos todos nós. Menos ainda admitem que eles façam esforços gigantescos, e até heróicos, para a conciliação dos diferentes intereses com os valores e princípios a que se encontram vinculados. Salvo raras excepções, ninguém se sente no dever de formular propostas de políticas alternativas viáveis. Quase toda a gente procede como se os governos não merecessem tal cooperação; esta só seria merecida por um governo ideal, super-divino, capaz de satisfazer todas as reivindicações.

Por enquanto, o país contestatário vê os governos como simples objecto de contestação, excepto quando, pontualmente, satisfaçam os seus interesses. Tarde ou nunca verá que, sem diálogo e concertação permanentes, em toda a parte, não teremos futuro como povo, e vamos corroendo todos os os futuros pessoais e familiares.