Os católicos conhecem a Bíblia?

Painel Assunção Costa

Directora do Secretariado Diocesano da Catequese de Infância e Adolescência. Orienta adultos que se preparam para o Baptismo

Parece-me que não podemos dizer que desconhecem ou conhecem a Bíblia. A meu ver, estão a caminhar com a Bíblia, na Bíblia. Há, de facto, uma descoberta que se está a fazer. Há uma fome de Deus que se sente. Vejo pela minha experiência, na caminhada de adultos para os sacramentos da iniciação cristã [Baptismo, Confirmação, Eucaristia], que há um grande entusiasmo na descoberta da Bíblia, no descobrir Deus na sua Palavra, Jesus que dá a vida por nós e pelo qual – como uma jovem há pouco me dizia – é bom que nos apaixonemos.

O balanço da formação sobre a Bíblia que o Secretariado da Catequese está a promover é muito positivo. Estão 222 pessoas inscritas, catequistas e não catequistas. Ontem [3 de Novembro], numa noite de chuva terrível, o salão do Seminário estava cheio. Fiquei de boca aberta ao ver muita gente molhada. Por alguma razão a Bíblia mexe cá dentro.

Ondina Matos

Enfermeira. Directora do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil e Vocacional

Respondendo directamente, penso que não, de todo. Pelo que conheço, a começar pelos catequistas e animadores, a nível paroquial e diocesano, há um grande desconhecimento, tanto da Bíblia como de outras áreas necessárias para a acção pastoral, daí que haja muitas pessoas e serviços a motivar para a formação. [O Secretariado da Pastoral Juvenil promove no próximo sábado um encontro que tem uma parte dedicada à Bíblia].

Sobretudo para conseguirmos ser testemunhas nos diversos contextos, é importante ter conhecimentos bíblicos e viver a Palavra Deus. Se eu estiver segura quanto às bases a minha fé, não me fecho numa concha sem saber o que dizer quando sou interpelada. Ser cristão também passa por saber argumentar quando somos questionados.

Franclim Pacheco

Pároco de Fermelã e Canelas e professor. Doutorado em Ciências Bíblicas

De uma forma geral, estou convencido de que não. Têm algumas histórias na cabeça, leram qualquer coisa, mas conhecem pouco. Mas noto que da parte dos mais responsáveis, catequistas e outros, há vontade de querer saber mais. E surgem iniciativas nesse sentido. O curso que estou a dar sobre os Profetas, no Seminário de Aveiro [promovido pelo Secretariado da Catequese e ISCRA], é uma delas. E com grande adesão.

A Bíblia, na tradição católica, era uma “coisa” que passava ao lado. A Igreja desaconselhava a leitura da Bíblia e valorizava os dogmas.

Quando se estuda a Bíblia, é necessário procurar o sentido mais profundo dos textos. O risco de quem a estuda sem aprofundar é pensar que “são só historietas”. É preciso fazer este caminho ao ler o texto: “Da forma como isto está, vamos lá ver o que quer dizer…”

Fernando Cassola

Programador informático. Dirigente do CNE e colaborador da Diocese de Aveiro na área das tecnologias

Penso que não conhecem muito, na medida em que a ideia que nós, católicos, temos da Bíblia vem muito do que é lido nas missas e, eventualmente, explicado nas homilias. Fora isso, os católicos, por natureza, não têm o hábito de leitura e aprofundamento da Palavra de Deus através da Bíblia, contrariamente às outras confissões cristãs.

Perde, assim, a acção pastoral na comunidade, devido à falta de conhecimentos dos leigos, e a vida pessoal de cada cristão. Os valores que os cristãos deveriam ter como pilar na vida quotidiana têm como fonte, por vezes, preceitos morais, costumes e tradições que nem sempre bebem da Palavra de Deus.