Cardeal-patriarca diz que a actual crise pode “pôr em questão” nível de vida

D. José Policarpo abriu trabalhos da assembleia plenária dos bispos com apelos à «equidade» nos sacrifícios pedidos.

O cardeal-patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) afirmou em Fátima que a actual crise económica no país “pode pôr em questão níveis de vida conseguidos” e agravar “a exigência da austeridade”.

Na abertura dos trabalhos da 178.ª assembleia plenária do episcopado católico, na tarde de segunda-feira, D. José Policarpo admitiu que “este agravamento pode, porventura, ser o resultado das medidas adoptadas para vencer a presente crise”.

Este responsável apelou ainda à “equidade, nos sacrifícios que se pedem, nos contributos que se esperam de cada pessoa ou de cada grupo social”. “Pode acontecer que se peçam sacrifícios que acabem por prejudicar o bem colectivo”, advertiu.

O patriarca de Lisboa disse que a sociedade portuguesa está a “atravessar um período difícil” que traz exigências “para todos” e pode agravar “a situação dos mais desfavorecidos”. “A todos os portugueses, de modo particular aos nossos irmãos para quem este período vai ser mais duro e exigente, dirigimos uma palavra de muito amor. Os mais pobres e os que sofrem serão sempre os nossos aliados privilegiados”, referiu, em nome dos bispos.

“A Igreja fará por vós e convosco, tudo o que puder. Queremos ser, para todos, porta de acolhimento e lugar da partilha”, acrescentou D. José Policarpo.

O presidente da CEP disse que não compete ao episcopado católico “apresentar soluções ou criticar as soluções apresentadas por quem tem a missão democrática de o fazer”, mas “proclamar valores fundamentais”. Entre estes, o cardeal-patriarca apelou em particular à “verdade”, “no concreto das situações”. “Que ninguém atraiçoe a verdade, que ninguém se sirva do sofrimento colectivo para impor as suas verdades”, alertou.

Mais à frente, D. José Policarpo pediu “solidariedade”, considerando que “esta exige que cada um dê prioridade aos outros, aceite que faz parte da solução colectiva”. “A solidariedade denuncia todas as atitudes individualistas, quer de indivíduos, quer de grupos ou classes. A sociedade é um todo, deve ser comunidade e buscar o bem comum, não apenas o bem individual e particular”, precisou.

Neste contexto, o presidente da CEP observou que “ninguém, pessoas, grupos e instituições, está isento de procurar perceber qual é o seu contributo para a solução das dificuldades”, criticando os que “teimam em pedir tudo ao Estado”. O cardeal-patriarca dirigiu-se explicitamente a “políticos, governantes, empresários, dirigentes das associações de trabalhadores”, referindo que “só os que servem merecem as honras da glória e do triunfo”.

Ag. Ecclesia

Bispos reúnem-se para renovar estruturas

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) está reunida em Fátima, desde segunda e até quinta-feira, para a sua 178.ª assembleia plenária, durante a qual vão decorrer eleições para os presidentes das Comissões Episcopais, organismos que serão reduzidos.

Na última reunião do Conselho Permanente da CEP, em Outubro, foi avançada uma proposta de redução de nove para sete comissões, com o objectivo de “agilizar” a acção destas instituições setoriais.

A estrutura da Conferência Episcopal inclui atualmente as comissões da Educação Cristã; Pastoral Social; Laicado e Família; Vocações e Ministérios; Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais; Liturgia; Mobilidade Humana; Missões; Doutrina da Fé e Ecumenismo.

Segundo comunicado do Secretariado Geral da CEP, na assembleia os bispos vão promover uma “reflexão sobre a missão e funcionamento” do organismo episcopal. Em cima da mesa estarão ainda a nota pastoral “Crise, discernimento e compromisso” e uma “Mensagem aos jovens portugueses”. Durante a assembleia vão ainda ser eleitos os bispos delegados ao Sínodo sobre a Nova Evangelização, convocado por Bento XVI para outubro de 2012, no Vaticano.

A CEP é a entidade representativa da Igreja Católica em Portugal e uma das conferências mais antigas, actuando regularmente como tal desde os anos 30 do século passado, embora só em 1967 tivesse os primeiros estatutos. São membros de pleno direito da CEP os bispos diocesanos, incluindo o das Forças Armadas e de Segurança, os bispos coadjutores e auxiliares.