Também lhe chamaram «Cordeiro de Deus»

A Árvore de Zaqueu «Cordeiro de Deus» é sem dúvida uma expressão que fez fortuna na arte e no sentimento religioso; mas que dificilmente terá, nos tempos de hoje, a ressonância que lhe cabia na história do povo judeu.

A riqueza simbólica dos animais acompanhou desde sempre a história humana até aos nossos dias, como se pode ver já em poemas primitivos de diversas civilizações. Em muitas passagens bíblicas do Antigo e Novo Testamento, Deus mostra carinho pelas animais e plantas. O homem sábio procura conhecer a natureza dos animais e das plantas (Sabedoria 7,15-21). A visão de S. Pedro (Actos dos Apóstolos 10), em que uma voz do céu lhe manda comer de «animais puros e impuros», não prepara apenas o apóstolo para igualar pagãos e judeus: também testemunha a dignidade universal de toda a criação. No Novo Testamento, a díade cordeiro-pastor adquire o alto simbolismo do cuidado eterno de Deus para com aqueles que O seguem. E Jesus tanto é o pastor sem medo como o cordeiro que se deixa prender para ser oferecido a Deus Pai como garantia da nossa salvação.

O simbolismo do cordeiro caracterizava «o servo de Javé». E o termo grego utilizado no Novo Testamento para significar “cordeiro” («amnós») é o mesmo com que se refere o cordeiro sacrificado no culto judaico e o «cordeiro pascal» (Êxodo 12,7), que não pode ter manchas nem defeitos, e no qual os primeiros cristãos viram simbolizada a pessoa e missão de Jesus Cristo. Na 1.ª carta aos Coríntios, S. Paulo sublinha que Jesus morreu para nossa salvação (15,3) de acordo com o significado libertador do «cordeiro pascal» (5,7).

Curiosamente, no Livro do Apocalipse, utiliza-se outro vocábulo («arníon»), que tanto pode significar cordeiro como carneiro. Se ao cordeiro assenta bem a mansidão e pureza necessária para o sacrifício, já o carneiro simboliza a força, o poder e a sabedoria. Ora justamente, o Apocalipse fala sobretudo da força, do poder e da glória do «arníon», esse animal cheio de olhos, de chifres, superioridade e bravura. Mas como só o cordeiro é que pode ser imolado, conclui-se que o autor do Apocalipse pretendia juntar em Jesus Cristo as características de um e outro no mais alto grau possível.

Com esta simbologia, pode-se iluminar as facetas paradoxais da personalidade de Jesus. Como «servo de Javé», deixou-se conduzir como um cordeiro, mas sem receio de enfrentar a dor e a morte; e assim cumpria o seu projecto de vida, tornando-se «luz das nações», que não desilude quem põe nele a esperança. A mansidão juntava-se à energia com que combatia o mal. Uma vida tão curta e tão circunscrita geograficamente, mas uma palavra e acção tão fortes que ecoaram pelo mundo inteiro.

Por isso, quando João Baptista aponta Jesus como «o cordeiro de verdade» (a expressão «de Deus» significa «a sério», «autêntico»), reconhece nele o pleno cumprimento do que se pretendia nos sacrifícios do Antigo Testamento. E desde muito cedo, os cristãos reconheceram, na «Última ceia», os “ingredientes” habituais dos antigos sacrifícios: o sangue e um corpo «oferecido por nós».

Porém, para Jesus o mais importante era procurar o entendimento do que é «encontrar-se com Deus». O «sacrifício da missa» será um lugar e um tempo especiais para recordar o sentido da vida de Jesus, «conviver com ele» e fortalecer o compromisso de «alinhar com ele».

Ele próprio advertiu, com mais veemência do que os antigos profetas: Deus não se encontra nos templos, como se fosse um ídolo, nem nas profundezas do mar ou nas altas montanhas, como se fosse um ser mitológico (João 4,21-24; Mateus 6,5-13); Deus está connosco, Deus é a vida que nos sustenta «agora e para sempre»; e «sempre que duas ou mais pessoas estiverem reunidas em nome de Jesus, ele estará presente» (Mateus 18,19-20). Embora seja bom estar «a sós com Deus» ou «a sós consigo mesmo», a aventura da fé não é solitária, como não é solitário o amor.

Manuel Alte da Veiga