Poço de Jacob – 63 A palavra aniquilar tem muitas conotações, mas é usada por S. Paulo na carta aos Filipenses capítulo 2, para falar da vinda de Deus à Terra, pela encarnação. Chamamos-lhe Kenosis.
Deus, em Seu Filho, como que se esvazia de si mesmo, e, sem perder a sua divindade, sendo rico, se faz pobre; não tendo pecado, se faz mergulhar neste mistério. É um mistério de amor para viver ao longo de todo o ano litúrgico, pois a liturgia celebra e vive do mistério de Cristo.
O aniquilamento de Jesus é a prova de um amor infinito e incompreensível que Deus tem por cada um de nós. Ele, sem precisar de nós para a sua Glória, assume a nossa natureza, pois nós jamais conseguiríamos redimir-nos dos nossos pecados.
Gosto de pensar que o pecado é a única acção de carácter infinito, se assim se pode dizer, que o homem faz, pois Deus, que se ofende com as nossas transgressões, ofende-se na sua medida, que é infinita, se assim se pode dizer, novamente, pois nossa linguagem é sempre imprecisa ao falar do divino. Já dizia alguém que, de Deus, sabe-se melhor Quem Ele não é do que Quem Ele é. Ofendendo a Deus na sua medida, o nosso pecado ofende-o infinitamente, pelo que só uma reparação infinita pode apagar o pecado. Daí a Kenosis de Deus que, no seu Filho, recebe reparação infinita, para suprir a nossa contingência.
Este é o amor de Deus celebrado neste Natal. Ele vem a nós para nos elevar até Ele. Este mistério tem feito as delícias de toda a Igreja nestes dois mil anos e de tantos que se dedicam à liturgia, à teologia, à espiritualidade, de conventos e mosteiros, de poetas e de místicos. Neste mistério, encontra a nossa alma o verdadeiro conforto e a maior prova de um amor eficaz.
Santa Teresa gostava de dizer que o melhor caminho para chegar a Deus é a consideração da Humanidade de Cristo Deus. Ela, a humanidade, em todos os seus momentos, é o mistério que nos dá a vida. Em Deus feito Homem, Deus mostra-nos o seu ícone, a sua imagem de ternura, a sua realidade palpável, vindo ao encontro das mais profundas esperanças da humanidade em toda a sua existência. Podemos explicar isto com a comparação do balancé. Deus, sentado numa extremidade, levanta-nos a nós, que estamos na outra. O seu abaixar-se é a nossa elevação para o Alto, para o Divino. O homem só tem de seguir o exemplo: Aniquilar-se também ele para que Deus seja exaltado em nós. Aniquilar pela educação o nosso egoísmo, sensualidade, enfim, deixar que seja Cristo a viver em nós, pelo cumprimento da sua vontade.
Este é o projecto de vida que o Senhor nos propõe neste ano de 2011. Numa sociedade hedonista, sensual, mentirosa, avarenta, materialista, cada Eucaristia significa a Kenosis de Deus que desce até nós. Ao recebê-lo, deveríamos dizer com S. João Baptista: “Que Ele cresça e que eu diminua”. Então ouviremos um dia a frase já conhecida: “Quem se humilha será exaltado”.
P.e Vítor Espadilha
