Missão entre nós – 14

De Capadinha – Brasil O que caminha para a frente sempre

Li e medito o texto muito sugestivo de Frei Betto, “O que não se recupera”, ou seja, aquilo que nos faz seres futuríveis. O conteúdo reflexivo era explanado pelo autor a partir das seguintes afirmações de princípio. “Existem quatro coisas na vida que não se recuperam: a pedra, depois de atirada; a palavra, depois de proferida; a ocasião, depois de perdida; e o tempo, depois de passado” (in brasileira, Ano I, nº10, Abril, 2003, p.19).

Pergunta-dinamite a que tenho de responder, presentemente: a maioria dos meus sentimentos negativos são ressacas emocionais de experiências vividas? Na infância, “acho” que fui uma criança com vida de alguma grata austeridade, muito feliz. Uma adolescência onde a vida se complicou atempadamente (portuguesíssimo advérbio). No processo de maturação adulta tudo continuamente se joga, mas como ainda sou terrivelmente ponderado, a ausência de risco revela a evidente mediocridade. Em que é que ficamos? Em quase nada. Sempre um nada que é todo o existir. Nada místico e não niilista.

Alguma sabedoria provisória se cola às minhas práticas e aos meus pensamentos sempre dispersos. A título de exemplo: a) O silêncio algumas vezes é calar, e é sempre escuta. Meu paradoxo espiritual preferido: se tivesses realmente experimentado Deus, tua vida teria sido tão transformada que não terias nada a dizer; b) O que torna um vaso útil é o seu vazio. A escolha é entre ser possuidor ou possuído; c) Porque não temos um símbolo de Cristo ressuscitado. Prefiro imaginar o Cristo ressuscitado como o Cristo que dança: que dança na vitória, dança na morte, dança na liberdade. Estou longe, sou (in)capaz de dançar.

Se a vida for uma sequência constante no amor; o porquê das irrupções de consequências não-amadas pelo vazio existencial? Sofro de um desvirtuamento da Cruz libertadora; aquela (e só aquela) que nos persegue no luminoso caminho da Ressurreição. Haverá ainda tempo para me explicar… pedir desculpas!? Decididamente não quero estar envolvido em uma luta pelo poder. Como é difícil viver despossuído do poder sagrado. Deus não tem nenhuma necessidade. Exercito-me na arte da atenção, para viver cada instante em sua plenitude.

Com a ajuda perigosa de Jean-Yves Leloup, sinto que outras descobertas existenciais amadurecem, vertiginosamente, para minha conversão pessoal. “Ser ou não ser, essa não é a questão! Já que, de qualquer forma, existimos nem que seja para nos formularmos a questão…Mas esperar ou não esperar, essa é a questão! Também essa é a nossa liberdade: entristecer-nos ou regozijar-nos com o que é.

Ser triste ou não ser triste… essa é a questão, não questão de humor, mas de vontade.

Eu o amo/eu não o amo; sou feliz/sou infeliz: nesse aspecto, nada tenho a ver com isso…

Em compensação, eu quero amar você/eu quero ser feliz: então, tenho algo a ver com isso” (in A Arte da Atenção, Verus Editora, 2002, p.47). Ao contrário de muita “fé-devoção”, ou de muita “espiritualidade-new age”, o autor inspirado na melhor Tradição, ao mesmo tempo, abertura a outras Tradições, liberta-nos do medo da contaminação, dos impuros, dos heréticos, e livra-nos de sermos meros papagaios que se limitam a repetir a sua (que é sempre a melhor!) doutrina. Autor perigoso, mas não de vias perigosas que merece a dedicação do nosso tempo. Fico por aqui… este ficar por aqui nas “Mãos Dadas”, postal de poesia a todos que me escrevem sem distinção, e porventura me lembram em suas “orações particulares”, num mundo que só consome poesia se lhe for servida numa dose de boa publicidade. Carlos Drummond felizmente não precisa da nossa publicidade.

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade, in Antologia poética,

Editora Record, 2001, p.158.