Livro António Baltasar Marcelino
Pedaços de vida que geram vida
Ed. Paulinas
116 páginas
“Há acontecimentos e situações que vivemos, mas não nos pertencem só a nós. Há vidas destinadas a ser berço de acolhimento de graças para as repartir pelos outros”. D. António Marcelino justifica assim o livro que as edições Paulinas acabam de publicar e que terá apresentação pública na Biblioteca Municipal de Aveiro, no dia 12 de Dezembro, pelas 18 horas.
Poderíamos chamar a este livro “pequenas memórias de um bispo”, lembrando um título de D. Manuel de Almeida Trindade (“Memórias de um Bispo”) e justificando com duas razões: o volume do livro (116 páginas em formato pequeno) e os casos nele relatados. O bispo emérito de Aveiro poderá escrever as grandes memórias de um bispo – e esperamos que escreva –, aquelas em que foi protagonista de grandes acontecimentos eclesiais nacionais (pensemos, por exemplo na criação das semanas nacionais de pastoral social ou na direcção de diversas comissões episcopais), diocesanos (Sínodo, Iscra, etc.) ou mesmo internacionais (como quando num sínodo dos bispos apareceu em lugar de destaque a pedir reformas na Igreja, ou enquanto representante dos bispos portugueses em instâncias internacionais), mas o que nos oferece neste livro são “experiências e confidências que são desafios e graças”, acumuladas em “56 anos de padre e 36 de bispo”, geralmente servidas na forma de pequena história e agrupadas por temas: “as raízes [familiares] que nunca secam”; as “experiências contagiantes”, após o regresso dos estudos em Roma, nos primeiros anos de padre; “quando Deus passa pelo coração”, no trabalho com os Cursos de Cristandade; “escola onde o bispo é discípulo”, ou seja, as visitas pastorais já como bispo; “e os jovens”, porque “é nos jovens que mais nos apercebemos de como as coisas estão mudando”; “profetas para tempos novos”, sobre “padres ou bispos que foram sinais de Deus a indicar e a estimular” o caminho.
Em resumo, diz o bispo emérito de Aveiro, o livro recolhe “experiências de vida”, “vivências profundas, por vezes misteriosas, como a paciência de Deus para connosco, a sua permanente e crescente misericórdia, as humilhações que nos ensinam o caminho da verdadeira humildade, os gestos discretos de irmãos que nos foram tornando o coração mais compreensível, acolhedor, gratuito, agradecido”. Tudo isto são “gotas que regam terrenos áridos, para que neles não esmoreça a esperança de uma nova colheita”. A vida é feita de pequenos encontros, de frases lapidares no momento certo, de gestos que desamarram nós, palavras que iluminam, silêncios e olhares que abrem portas. Pedaços de vida que geram vida portanto.
Escreve ainda D. António Marcelino, nas primeiras páginas, que “todos os que servem os outros têm as suas vivências próprias. A questão é dispormo-nos a confiá-las, com simplicidade e verdade, a quem também pertencem e a quantos delas queiram beneficiar”. Depois destas vivências, só podemos desejar: Venham mais.
J.P.F.
Olá,
senhor bispo
Foi à porta do Seminário. Eu falava com um padre muito zeloso, respeitador à maneira antiga. Iam a passar os alunos do pré-seminário e um deles, já espigadote, aproxima-se, bate-me nas costas e diz, sem mais: «Olá, senhor bispo, tudo bem consigo?» «Tudo bem – disse eu. – Conta-me lá como estão os teus pais e como vai esse ano em relação aos estudos?» Respondeu, deu meia volta e partiu como chegara.
O padre estava a olhar arregalado e desatou: «Então, mas isto, agora, é assim? Ninguém educa esta gente?» Lá o sosseguei, sem grande êxito, mas fui-lhe dizendo que, se não aprender a lidar com a gente nova, ficará sem jovens na paróquia… E ele isso entendeu.
D. António Marcelino,
pág. 72-73 de “Pedaços de vida que geram vida”
