Arquitecto Carlos Mendes (1869-1922)

Aveirenses Esquecidos Pouco conhecido em Aveiro, Carlos Mendes desenhou o primeiro quartel dos Bombeiros Novos, demolido, e o Bazar de Maputo, que ainda funciona.

Autor de um dos mais emblemáticos edifícios de Moçambique – o Mercado de Maputo, Carlos Augusto José Mendes continua praticamente esquecido em Aveiro, cidade onde nasceu no dia 13 de Agosto de 1869 e em que faleceu a 25 de Maio de 1922.

Se o edifício do Mercado (ou do Bazar) da antiga cidade de Lourenço Marques (inaugurado em 1903), ainda permanece em pé e apresenta ainda parte significativa da sua traça original, o mesmo já não acontece com alguns dos principais edifícios projectados por Carlos Mendes em Aveiro e na região aveirense, que simplesmente foram demolidos ou profundamente alterados. No primeiro caso, incluem-se dois imóveis que marcaram a cidade de Aveiro: o primitivo quartel dos Bombeiros Novos de Aveiro (começado a construir em 1920), demolido para dar lugar ao actual quartel, e a mercearia de Albino Pinto de Miranda (construída entre 1907 e 1912), conhecida pelos seus painéis publicitários em azulejos, demolida para permitir a construção da Avenida Santa Joana, a que se junta ainda o gradeamento em frente ao adro da Sé de Aveiro. No segundo caso, há que referir o imóvel que actualmente acolhe o Centro Cultural de Angeja, erguido por encomenda de António Nunes Ferreira no espaço das ruínas do antigo palácio dos Marqueses de Angeja.

A bibliografia sobre Carlos Mendes é bastante escassa, havendo somente algumas referências em obras dos historiadores aveirenses Amaro Neves (sobre Arte Nova) e Manuel Ferreira Rodrigues (num trabalho sobre a construção civil em Aveiro), sendo de realçar um texto da autoria de Gaspar Albino evocando Carlos Mendes não só como arquitecto mas também como primeiro comandante dos Bombeiros Novos e o autor do projecto do primeiro quartel dessa corporação.

Neste último texto, Gaspar Albino recorda que “Carlos Augusto José Mendes nasceu a 13 de Agosto de 1869, no Cojo, filho de um empregado da Alfândega e de uma padeira. Era gente muito pobre. Apesar de inúmeras dificuldades materiais, o seu enorme talento artístico impeliu-o a matricular-se na Academia Portuense de Belas Artes, em Arquitectura Civil, em 21 de Outubro de 1889”.

A par de Arquitectura, naquela academia portuense Carlos Mendes também Escultura, Desenho Histórico e Pintura, “tendo sido companheiro de estudos dos que viriam a ser os tão conhecidos aveirenses, arquitecto Jaime Inácio dos Santos e escultor José Maia Romão Júnior. A grande pintora portuguesa Aurélia de Sousa foi sua contemporânea na Academia”.

De realçar que Carlos Mendes foi o primeiro 2.° prémio do concurso “Soares dos Reis”, com um projecto de “invenção de arquitectura civil”.

Em 1908, publicou o seguinte anúncio no jornal aveirense “Democrata”: “Carlos Mendes. Premiado pela Academia das Belas-Artes. Ensina desenho e pintura em casa dos alunos, em Aveiro e arrabaldes. Encarrega-se de fazer projectos para edificações, medições, orçamentos e plantas de terrenos. Rua do Gravito”. Curiosamente, neste anúncio não fez qualquer referência à sua passagem por Moçambique e ao facto de ter projectado o mercado municipal da capital daquela antiga colónia portuguesa, inaugurado cinco anos antes.

De 1 de Dezembro de 1909 até Outubro de 1913, Carlos Mendes assumiu o cargo de primeiro Comandante dos Bombeiros Novos. Foi também o autor do projecto para o primeiro quartel construído de raiz para acolher a aquela corporação, que começou a ser construído em 1920, sendo também autor do desenho do auto de posse da Primeira Comissão Municipal Administrativa Republicana.

No seu texto, Gaspar Albino revela que “Carlos Mendes foi chefe da repartição das Obras Municipais da Câmara de Aveiro, merecendo, conforme registos em actas camarárias, desde a mais violenta censura até ao mais rasgado elogio, como funcionário, como arquitecto e como cidadão”.

Cardoso Ferreira

Primeiro quartel dos Bombeiros Novos de Aveiro

Gaspar Albino conheceu bem o antigo quartel dos Bombeiros Novos, como sublinha no seu texto, ao afirmar: “Eu tive a subida honra e especial privilégio de o servir, a David Cristo, entretanto já presidente da Assembleia-Geral, e eu eleito presidente da Direcção dos Bombeiros Novos, ainda no velho quartel da traça do arquitecto Carlos Mendes”. Sublinha, por isso, que “era um lindo edifício este, o do quartel dos Bombeiros Novos, então dos mais belos exemplares de Arte Nova da nossa cidade, apesar de muito degradado. Quando assumi responsabilidades directivas nos Bombeiros Novos, o seu destino já estava inexoravelmente traçado. O projecto do novo quartel já estava superiormente aprovado e a sua construção seria levada a cabo no espaço que resultaria da demolição da primeira sede de raiz que a Corporação tinha tido. Já nada podia fazer para evitar tão grande perda. Nesses tempos, a importância atribuída ao património da Arte Nova aveirense era insignificante e a avaliação histórica do mérito de muita da nossa arquitectura estava por fazer”.

“Dessa casa tão bonita resta hoje, tão somente, um primoroso desenho a nanquim aguarelado com os alçados fronteiro e lateral da autoria do ilustre arquitecto aveirense Carlos Mendes. Salvei “in extremis” tal desenho que quase se ia perdendo à frente de camartelo demolidor. Salvei isso e o monograma da Companhia da autoria do saudoso artista aveirense José de Pinho, vazado em cimento, que mandei guardar e posteriormente colocar no novo quartel”, continua o texto de Gaspar Albino, que termina lembrando que “recuperou-se o seu retrato a partir de uma zincogravura publicada no periódico aveirense “Democrata”, de 25 de Maio de 1929, em artigo de elogio póstumo, de autoria de Acácio Rosa, decorridos que eram 7 anos sobre a morte de Carlos Mendes”.