A Árvore de Zaqueu É assim a tradução literal da frase que precede a «confissão» de João Baptista – e assim aparecia nos antigos missais, não sem causar certo gozo à malta nova ao ouvir no evangelho expressão tão arrevesada.
Na verdade, «confessar» significa uma declaração firme (aplicada sobretudo à declaração de culpabilidade). E o arrevesado serve para sublinhar que se trata de uma declaração sem evasivas nem subterfúgios. É não ter medo de dizer a verdade. Seja ou não custoso para quem ouve, seja ou não custoso para quem diz.
Na 1.ª leitura, o profeta Isaías proclama que age com a força do espírito de Deus. E como está tão seguro disso? – Porque não despreza os pobres, antes lhes abre novos horizontes; porque não passa ao lado de quem sofre, antes lhe dá conforto com a sua presença e com palavras reveladoras do sentido da existência.
É de notar que, quando Jesus foi convidado a comentar um texto bíblico na sinagoga de Nazaré (Lucas 4,18-19), utilizou esta citação de Isaías. E mais tarde, quando João Baptista, já na prisão de Herodes, mandou perguntar a Jesus se ele era mesmo «aquele que deve vir» (Mateus 11,2-6), Jesus reafirma a sua missão tornando a apresentar-se nos termos do mesmo texto de Isaías, mas acrescentando que compete a cada pessoa pronunciar-se a favor (de Jesus) ou contra. Nesta posição de cada qual se baseia o Juízo de Deus (Mateus 10,32-33).
O evangelho mostra claramente a preocupação de João Baptista e de muitos crentes sobre qual era o seu papel e o de Jesus no projecto de revelação de Deus. O Baptista parecia consciente da missão especial de Jesus, mas nem podia crer no que estava a acontecer…
Pelos tempos fora, a pergunta «quem és tu?» – dirigida a todos os profetas antigos ou modernos e ao próprio Jesus Cristo como um vivente que questiona a humanidade – deve ser feita por cada um de nós, na medida em que não queira ficar a «ver passar o comboio». Porque nós não podemos confiar levianamente em ninguém, nem no próprio Jesus Cristo (Lucas 14,28-32). Precisamos de saber o que ele significa para nós, e depois agir em consonância.
A 2.ª leitura mostra a força com que S. Paulo acreditava na missão de Jesus e como a sua vinda final fará felizes a todos aqueles que não «confessaram a fé» apenas com palavras. Nesta carta ecoa o verso de Isaías (60,17): «A Paz será a tua inspectora; a Justiça, a tua regra suprema» (Isaías 60,17).
A vitória final do bem sobre o mal (implicando o «juízo» de Deus, como revelação do sentido da vida e de como lhe procurámos dar sentido) pertence ao núcleo duro da fé cristã. A esta vitória alude a expressão muito usada por S. Paulo de a «futura vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo» na qual será a todos manifestada a união entre Deus e a humanidade.
No tempo de Natal, reforça-se a intuição de muitos profetas, como Isaías, e Deus surge como «habitando entre nós», presente nas crianças que nascem e que morrem, nos adultos com sucesso e sem sucesso, na alegria e no sofrimento. Um Deus próximo, para quem cada ano da nossa vida pode ser um ano de mais profunda amizade com todos porque com ele também. Um amigo que nos acompanha – com quem podemos falar – tanto no auge da angústia como no auge do prazer. Não é um Deus que nos faz «beatos», um Deus para quem «certas coisas que fazemos» são «feias», e que exige um culto pouco ou nada alegre. É um Deus para quem tudo o que fazemos na vida pode ser bom – sob uma única condição: fazer coincidir o nosso bem com o bem dos outros. Porque todos os nossos dons são proféticos (2.ª leitura) – e são-no porque o espírito de Deus (Marcos 1,8) está sempre em nós, lutando a nosso lado para que não fiquemos insatisfeitos.
Manuel Alte da Veiga
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