A Árvore de Zaqueu DOMINGO XIIi do tempo comum – Ano C
O Evangelho de hoje baralha o jogo por completo: como conciliar a bondade de Jesus e a sua mensagem de que somos «filhos» de Deus, com a exigência de nem sequer voltar atrás, por uns momentos, para nos despedirmos carinhosamente da família e amigos?
Uma longa e certamente bem intencionada tradição cristã (particularmente nas ordens religiosas) provocou um clima de conflito entre «seguir Jesus» e os laços afectivos com os amigos e a família mais chegada. De facto, este grupo, justamente porque tende (e ainda bem!) a defender a estabilidade e equilíbrio dos seus elementos, opõe-se por vezes duramente à escolha de uma vocação original – ora porque não traz dinheiro, ora porque é francamente esquisita e quem sabe se perigosa, ora porque dá falatório… (é claro, se ao menos trouxer importância, a cantiga é outra!). Na óptica da maioria das instituições religiosas, impunham-se cortes radicais numa relação potencialmente “perigosa” para o seguimento de Jesus.
A imagem de Cristo surgia totalmente avassaladora. E quem dela despegasse os olhos, seria semelhante ao lavrador que perdia a mão do arado, só por «olhar para trás» e chorar de saudades.
Os três provérbios usados por Jesus, totalmente extremistas e até chocantes, cumprem o objectivo de pôr em questão muitos preconceitos e ideias correntes, que, no melhor dos casos, apenas levam à organização de uma vida mediana.
Jesus lembra que a luta pelo bem das pessoas concretas (o projecto de Deus) pode exigir, de vez em quando, que não se saiba onde e quando se pode repousar; e que não se deve esconder a fraqueza de espírito ou interesses maldosos nas manifestações de carinho; e que o projecto de vida é como o rude e pesado arado do seu tempo, que exige, a quem quiser abrir os sulcos com proveito, pulso forte e olhar bem à frente – não vá o arado rasgar a terra por onde não deve…
A interpretação comum seria de puro estilo oriental: é preciso concentrar-se, concentrar-se, concentrar-se… naquilo que descobrimos ser o que dá sentido à nossa vida, que nos faz realmente felizes.
Esta concentração é que nos liberta para a planificação prudente de todas as nossas acções, desde as mais comezinhas. Nem condena que a gente pare e aprecie o trabalho feito – o que dá prazer e possibilita melhoramentos. Se Eliseu não tivesse «olhado para trás» antes de seguir Elias (para se despedir dos pais), não tiraria proveito do velho arado nem de uma das suas juntas de bois, fazendo uma boa fogueira e um belo assado, com que festejou e ganhou forças para o novo tipo de missão…
O que Jesus frisa claramente é que o Reino de Deus não permite confusões entre o sim e o não (Mateus 5,37). Seja qual for o nosso estilo de vida, não nos podemos fingir descomprometidos com a justiça: à mesa da família e quando “vamos à missa”; no trabalho e na oração; nos divertimentos, quando namoramos e fazemos amor… É assim que o «Espírito de Deus» tudo transforma em energia para o bem da humanidade.
Para S. Paulo, só ganha esta energia quem queira «viver segundo o espírito», e não como animaizinhos de olhos fechados como os que ainda «vivem segundo a carne». São dois modos de viver. Mas só quem é livre com «a verdadeira liberdade», é que é capaz de tomar decisões, procurando libertar-se tanto das injustiças sociais como de perigosos caprichos. O progresso real exige uma vontade cada vez mais global e efectiva para estudar e aplicar o que é verdadeiramente o bem comum – para além do nosso pequeno espaço e tempo; e como eliminar as maneiras anti-humanas de obter certos lucros materiais, pondo o maior prazer em descobrir para onde convém apontar o arado. Só assim compreendemos que o campo é para todas as gerações e que ninguém pode matar a esperança de que, mesmo devagarinho, o arado pode ir em boas mãos…
Jesus queria que os seus discípulos compreendessem que a todos compete lançar mão ao arado e que não se pode hesitar perante o que é mesmo bom para fazer.
Pois se nos distraímos na hora, lá se perde o penalty…
Manuel Alte da Veiga
