O evangelho de João não faz o relato da instituição da Eucaristia. Em vez disso, enquadra na celebração da Ceia a narrativa do lava-pés. Para escândalo dos Seus discípulos, sobretudo de Pedro, Jesus, Mestre e Senhor, ajoelha-se a seus pés para lhos lavar. E conclui que o Seu exemplo é para ser seguido.
Poderemos dizer que este gesto completa, de alguma forma, a cena do Presépio: o paradoxo do Senhor dos senhores feito o mais humilde e obediente dos homens, o servo dos servos… Um desafio permanente e radical a quantos se querem considerar seguidores do Mestre. Um programa de vida exigente, que desviamos com frequência da nossa rota cristã, inventando milhentas desculpas para moldarmos a vida como nos convém, em vez de acolhermos esta proposta radical.
A lição do presépio, mais do que o apelo a recordar a simplicidade de Belém ou a vida discreta de Nazaré, é o imperativo de uma forma de vida a cultivar em todo o tempo e lugar, como fermento de um mundo de sobriedade, de proximidade, de cooperação.
Sabemos como foi estropiado, pervertido, o sentido do Natal. Os interesses comerciais, a perda de valores, paganizaram por completo este acontecimento que mudou a história da Humanidade. E a tal ponto que não sobra, em muitos casos, nem sequer a memória do motivo destas “festas”.
Recuperar o seu sentido não é apenas restabelecer a poesia do presépio, fomentar a reunião das Famílias, entronizar a imagem do Menino, solenizar a liturgia natalícia… É recomeçar, isso sim, paulatinamente este estilo novo de vida que torna o mundo diferente.
A ternura da gruta, a alegria dos pastores, a busca dos magos, a universalidade da Luz que para nós nasceu, são outras tantas atitudes que nos guiarão nesse novo estilo de vida, a semear nas famílias e nos grupos, a interiorizar e tornar prático todos os dias do ano. Tal prática não se compraz com os nossos egoísmos e vaidades, com as nossas invejas e ganâncias, com as nossas sedes de poder e domínio.
Os valores do Reino, nascidos do Presépio, irão seguramente vencer. Temos a garantia disso! Mas a sua presença e visibilidade neste mundo dependem também da nossa ousadia em assumir o desfio radical do Natal!
