“Queremos mostrar um novo rosto da Igreja”

Decorre um pouco por toda a diocese o debate e partilha sobre as propostas para a Missão Jubilar dos 75 anos da Restauração da Diocese de Aveiro (ver essencial das propostas na página 04). Enquanto vigário para a pastoral geral, pertence ao P.e Francisco Melo, que também é pároco da Gafanha da Nazaré e da Gafanha da Encarnação, a liderança deste processo. A Missão Jubilar há-de ser um “choque operativo”, com as pessoas mobilizadas em actividades originais, sendo realçado o rosto alegre, fiel e renovado da Igreja – realça P.e Francisco Melo, nesta entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Arrancou a discussão do documento de trabalho sobre a Missão Jubilar 2013. Em breves palavras, o que é esta Missão Jubilar 2013?

FRANCISCO MELO – Em 8 de Dezembro de 2008, no lançamento do plano pastoral para o quinquénio 2008-2013, o nosso Bispo convocou-nos para a realização da Missão Jubilar como forma de celebrar os 75 anos de restauração da nossa Diocese.

Assim, motivados por esta celebração, queremos realizar uma MISSÃO que envolva a Igreja de Aveiro no seu todo num “choque operativo”. Este “choque operativo” queremos que aconteça pelo modo como vamos fazer esta missão, envolvendo a Igreja no seu todo, e ainda no que vamos fazer: acções diferentes do habitual que procuram levar os cristãos a mobilizarem-se em actividades originais, mostrando assim um novo rosto da Igreja a este mundo em que vivemos. O nosso ser em Cristo e a imagem que damos ao nosso mundo deste ser em Cristo são preocupações presentes na elaboração da proposta da Missão Jubilar.

Queremos ainda que seja “JUBILAR”, pois o seu conteúdo central é viver e sentir que ser cristão é ser feliz. É esta alegria e gozo de ser cristão que queremos transmitir ao mundo. Uma Igreja alegre, ousada, fiel e renovada – estas características são igualmente preocupações presentes na programação que estamos a fazer.

Já se realizaram três encontros arciprestais, Águeda, Albergaria e Anadia, está marcado para hoje o de Oliveira do Bairro e para amanhã o de Ílhavo. Como estão a decorrer estes encontros? Têm saído novas propostas?

Estes encontros que estamos a realizar são muito importantes porque, como dissemos, a “Missão Jubilar” quer envolver a Igreja toda, por isso é necessário que a Igreja seja desde já envolvida na programação. Está a sê-lo não só através das estruturas, movimentos e serviços diocesanos, mas também o nível das comunidades paroquiais e respectivos arciprestados. Até agora a participação das pessoas tem sido em número interessante, tendo ultrapassado as 100 pessoas em dois dos encontros e noutro um pouco menos de 100. O acolhimento geral à proposta tem sido positivo e surgiram já algumas propostas concretas, nomeadamente ao nível da celebração da Missão nos arciprestados. A proposta será reformulada acolhendo as sugestões feitas depois de terminada esta ronda por todos os arciprestados.

O lema, os objectivos e as actividades propostas estão discussão e partilha. Quando será conhecido o programa definitivo?

O programa definitivo está previsto que seja apresentado em 1 de Junho de 2012 numa conferência de imprensa e com publicação do texto base da Missão Jubilar.

Afirma o documento de trabalho que em breve estará constituída uma equipa diocesana da MJ2013. Pode-se saber por quem é constituída esta equipa?

Esta equipa diocesana terá a função de coordenar a realização da Missão Jubilar. Está a ser constituída. Posso é desde já adiantar que queremos que seja pequena e operativa, mas ainda não está formalizada. No entanto, para além desta equipa, muitas outras equipas deverão ser constituídas, não só a nível diocesano como também local. Esse é um dos trabalhos que agora temos pela frente.

Entre as actividades propostas está a publicação de uma banda desenhada da história da Diocese. Vai mesmo se levada avante?

Todo o programa está em aberto, até para que algumas das sugestões feitas possam ser retiradas. Ainda é cedo para definir o que vai ou não ser realizado, pois depende em primeiro do acolhimento que é feito pelas pessoas e depois também da nossa capacidade de realização.

Afirma-se: “Fazer o organograma da Diocese para o futuro”. O que se pretende com isto?

A nossa Diocese assumiu no actual plano pastoral a reformulação dos seus serviços diocesanos. Todos sentimos o cansaço das estruturas, a repetição dos fins e objectivos de estruturas diferentes e a falta de coordenação das mesmas. É um caminho duro e difícil porque envolve pessoas. Mas foi iniciado este processo com o plano de pastoral social. Certamente irá continuar com os outros. Será assim mais fácil depois elaborar em definitivo o organograma e implementá-lo.

Se se trata de repensar e renovar as estruturas, impõe-se esta pergunta: Como está a questão do centro de acção pastoral, que para alguns serviços ainda funciona na Rua José Estêvão, 50? Falou-se na transferência dos serviços pastorais para o edifício do Stella Maris (Gafanha da Nazaré)… Vai avançar?

Na Missão Jubilar a renovação das estruturas não é a prioridade. Ela simplesmente acompanha o processo da Missão. A questão do Centro de Acção Pastoral continua a ser uma preocupação até porque está a degradar-se rapidamente e a Diocese, pelo que posso perceber, não tem capacidade financeira para requalificar o edifício. Quanto ao Stella Maris não é uma solução abandonada, mas é, pelo menos por agora, uma opção mais distante. Contudo, urge encontrar uma solução, mesmo que provisória para os serviços diocesanos, até porque entendemos que a proximidade física dos diversos serviços e movimentos pode potenciar a Missão. Estamos a trabalhar numa solução provisória.

Na sua perspectiva, quais os objectivos e actividades mais importantes da MJ 2013?

Para mim, o mais importante já o disse atrás: trilhar um caminho em conjunto, em Igreja com a Igreja toda da nossa Diocese para que o ser em Cristo me transforme e nos leve a todos a testemunhar ao mundo que ser cristão é ser feliz, como nos tem dito muitas vezes o nosso Bispo. Das actividades, uma das mais importantes é sem dúvida a reflexão que actualmente está a ser feita actualmente nos Arciprestados. Do previsto penso que vale a pena destacar que queremos mostrar uma nova imagem da nossa Igreja Diocesana, utilizando as técnicas e meios de comunicação de forma bela e eficaz. Acredito que as acções dos dias 11 são uma opção ousada e arriscada, mas potencialmente verdadeiras “bombas” para testemunhar um modo diferente ser Cristão em Aveiro. Será de realçar ainda a preocupação de chegar a todos os recantos da diocese, pelo que a Missão nos arciprestados e respectivas paróquias assume uma especial importância. Por fim, haverá concentrações diocesanas que esperamos sejam o resultado da caminhada feita ao longo da missão e nos lancem em novos caminhos.

A Missão Jubilar (de 21 de Outubro de 2012 a 11 de Dezembro de 2013) coincide em grande parte com o Ano da Fé (de Outubro de 2012 a Novembro de 2013), convocado por Bento XVI. Há coordenação ou corremos o risco de dispersão de apelos e iniciativas?

A Igreja de Aveiro está em comunhão com a Igreja Universal através do seu Bispo, por isso naturalmente que estaremos em comunhão com a proposta do Papa, que integraremos, bem como também a proposta resultante do processo “Repensar a pastoral da Igreja em Portugal”, sem esquecer os desafios sempre presentes do nosso II Sínodo Diocesano de Aveiro.

D. António Francisco afirmou a este jornal, em Dezembro de 2008, que a MJ “alimenta-se em permanência da consciência eclesial que nos diz que toda a Igreja deve ser missionária”. E o nome “missão” remete para este objectivo. Parece, no entanto, estar pouco contemplado, por um lado, o diálogo com os não crentes, os ateus, as outras religiões, por outro, o diálogo com a cultura, ao mundo artístico, à Universidade… Concorda?

Concordo que a proposta da Missão Jubilar precisa de ser mais bem trabalhada nesta área do diálogo com o mundo, sociedade e instituições que nos envolvem e também com as opções pessoais de cada ser humano. No entanto, no meu modesto entender, a Igreja só entrará verdadeiramente em diálogo com… a partir do momento em que ela se tornar de facto significativa. Ela já o é na Boa Nova de que é portadora. Mas precisa de ser, de modo a tornar-se, pelo que possui, pelo que faz e pelo modo como o faz um verdadeiro areópago de diálogo e encontro com o ser do homem tocado pelo transcendente e por isso mesmo capaz de elevar o homem a essa transcendência que produz em cada um de nós o existir em Cristo.

No início de 2014, como será para si um balanço óptimo da MJ2013?

Por agora, o que podemos e devemos fazer é sonhar e trabalhar para que esse sonho se torne realidade.

Amo a Igreja onde nasci para a fé e em concreto esta Igreja que me fez presbítero. Por isso, sonho esta Igreja de Aveiro humilde, feliz e alegre pelo que significa de realização no aqui e agora do coração dos Homens da Boa Nova do Evangelho. Sonho com uma Igreja ousada na forma de propor que ser cristão é ser feliz. Sonho com uma Igreja que centra o seu viver e o seu testemunho na Eucaristia como encontro da comunidade dos que acreditam em Cristo, o Filho de Deus que morreu e ressuscitou e que nos torna participantes desta Vida. Sonho com uma Igreja desempoeirada de preconceitos humanos e tradicionalismos que coíbem a liberdade. Arrojada e capaz de abandonar o que é periférico e supérfluo para ser capaz de se centrar no essencial. Uma Igreja sem medo de acolher e integrar realmente aqueles que pelas mais diversas razões tiveram de fazer opções difíceis na sua vida matrimonial ou de exercício do ministério ordenado, etc. Uma Igreja que acolhe exigindo adesão interior ao coração de Cristo, mas que não julga. Uma Igreja que não se impõe por monumentos, nem pela força do ouro ou do dinheiro, mas sim pela sua forma alegre, humilde, organizada, operativa e empenhada de viver Cristo hoje.

Em 2014, se sentirmos que caminhamos em conjunto, que fomos ousados e alegres e tornámos significativos, então é sinal que demos um salto qualitativo no modo de ser Igreja em Aveiro.