Saúde Mais de 100 mil portugueses sofrem de doenças relacionadas com os ossos, mas sabia que é errado dizer que dói este ou aquele osso? O que fazer para ter ossos fortes e saudáveis? A estas e outras questões sobre os ossos, responde o médico José Carlos A. Costa.
Ossos. O que são?
O esqueleto humano integra 206 ossos, constituídos por duas importantes células: os osteoblastos e os osteoclastos. Os osteoblastos promovem a deposição do mineral fosfato de cálcio na rede proteica do osso, enquanto os osteoclastos retiram o mineral do osso. O crescimento do tecido ósseo resulta do equilíbrio entre a atividade destas duas células. A dinâmica destas células é controlada por hormonas segregadas pelas glândulas da hipófise, suprarrenais, tiroide e glândulas sexuais. As hormonas produzidas por estas glândulas mantêm o nível de cálcio no sangue dentro de estreitos limites (9 a 11 mg/dl) e nos ossos o equivalente ao necessário. A diminuição destes valores abaixo do nível normal compromete a função dos tecidos nervosos e músculos. Os ossos estão revestidos por uma membrana chamada periósteo.
Para que servem?
Os ossos estão articulados por estruturas móveis (articulações), estando todos ligados entre si através de ligamentos, tendões e músculos. O osso é o tecido mais duro do corpo humano. Não tem sensibilidade à dor. Por isso, é errado dizer-se que dói este ou aquele osso. Qualquer sensação provém dos nervos periósticos e de outros tecidos moles e não do osso. Para além de constituírem a estrutura rígida do corpo humano e de proteger alguns órgãos (coração, pulmões, cérebro, espinal medula, útero e rins), quando associados aos músculos, proporcionam a execução de movimentos e garantem a sustentação de todo o corpo. Com as articulações, os ossos formam o aparelho locomotor. São produtores de células sanguíneas importantes e funcionam como depósito de minerais, nomeadamente do cálcio e magnésio.
Porque é que adoecem
os ossos?
Os ossos iniciam o seu crescimento no embrião, a partir da quinta ou sexta semanas de gestação, sob a forma de cartilagem. Esta cartilagem é substituída por osso, através de um processo chamado ossificação (processo biológico por meio do qual o osso se forma, se renova e se regenera), que começa no embrião e continua por toda a vida.
O tecido ósseo não é estático, mas dinâmico. Tem um dinamismo constante e permanente, quer na produção de células sanguíneas, como já foi referido, quer na receção e fixação de cálcio e de outros minerais. O cálcio, assim como os demais minerais constituintes do osso, entram e saem dos ossos permanentemente. Em situação normal, a quantidade de cálcio que retorna ao sangue deverá ser inferior à quantidade que entra nos ossos. O cálcio que entra nos ossos tem como principal objetivo repor os gastos, reparar as perdas e nivelar os valores, contando, para isso, com a participação ativa das células responsáveis pelo depósito, armazenamento e fixação deste mineral: os osteoblastos. Quando a perda é superior ao cálcio depositado, o osso enfraquece, definha e adoece. Altura para se olhar com maior atenção para o mecanismo responsável pela eliminação do cálcio da massa óssea: os osteoclastos. Estas células constituintes do tecido ósseo entram em disfunção (desregulam-se), quando existe um descontrolo hormonal, principalmente daquelas que têm um papel fundamental no aproveitamento e fixação do cálcio, nomeadamente os estrogénios e testosterona.
Como se alimentam
os ossos?
O tecido ósseo, à semelhança dos demais tecidos do corpo humano, necessita de uma eficiente rede circulatória que garanta a irrigação (sanguínea e linfática) total e permanente de todas as células do organismo. Os nutrientes necessários à construção e preservação da saúde dos ossos provêm dos alimentos ingeridos, absorvidos, lançados no plasma e transportados pela corrente sanguínea e linfática até aos locais de destino. Este transporte só é possível quando existe um sistema circulatório saudável, sem barreiras aterogénicas (substâncias gordas, resultantes do excesso de colesterol) e isento de lesões vasculares (varizes e tromboflabites). Um tecido mal irrigado é também mal nutrido. A subnutrição ou nutrição deficiente é caminho para se obterem doenças ou situações anómalas.
O sinal visível mais frequente de alerta para anomalias vasculares com influência na saúde dos ossos é o edema articular (dilatação dos tecidos moles da articulação). Os edemas significam congestionamento e tumefação tecidual localizada, denunciando situações de inflamação. Estas inflamações são muitas vezes iniciadas no sistema circulatório intrínseco ao osso (rede vascular do interior do osso) ou noutro(s) vaso(s) da rede geral, com influência direta na região (articulação) afetada. Alguns tipos de edemas, devido à patologia (doença/anomalia) associada, poderão evidenciar sinais reveladores de deformação da estrutura articular afetada. Estes sintomas são quase sempre acompanhados de maior dificuldade na execução de movimentos, são sinais de alerta para a pessoa intervir e pedir ajuda.
Quais as doenças
reumáticas
mais recorrentes?
As doenças do foro reumatológico de maior incidência na população contemporânea são as doenças e alterações funcionais do sistema músculoesquelético de causa não traumática, onde se incluem as doenças inflamatórias do tecido conjuntivo e dos vasos, as doenças degenerativas (localizadas nas articulações periféricas e da coluna vertebral), as alterações metabólicas (ósseas e articulares) e as alterações dos tecidos moles periarticulares.
As doenças reumáticas mais incomodativas são aquelas que originam as síndromes dolorosas localizadas. Tais doenças poderão ser agudas, recorrentes ou crónicas e atingem pessoas de todas as idades. São causa frequente de incapacidade e, quando não identificadas ou tratadas atempada e corretamente, podem proporcionar graves e indesejáveis repercussões físicas, psicológicas, familiares, sociais e económicas. Constituem a primeira causa de reforma antecipada por doença.
Existem mais de uma centena de doenças reumáticas, incluindo as doenças periarticulares dos tecidos moles das articulações, as osteoartroses, as raquialgias (dor na coluna vertebral), gota úrica, as osteoartrites típicas da coluna cervical, ombros e mãos, as espondilartrires anquilosantes e demais artrites reativas frequentes nas articulações da coluna torácica e lombar, as osteoartroses comuns das articulações dos joelhos e cabeça do fémur, as fibromialgias dos tendões e músculos, as doenças reumáticas sistémicas, as tendinites, nevralgias, a osteoporose (perda irreversível de massa óssea) e a doença reumática inflamatória crónica. Estas patologias exigem maior controlo e rigor terapêutico, sabendo que a melhor terapia para o reumatismo é a prevenção.
Como se manifestam
as doenças reumáticas?
As formas mais comuns de manifestação das doenças de índole reumatismal são a dor, a tumefação (aumento de volume, inchaço/edema patológico, provocado por um processo inflamatório) e a limitação da mobilidade. Estes sinais e/ou sintomas deverão ser avaliados imediatamente após o seu aparecimento, porque quanto mais cedo se iniciar a terapêutica adequada, maior será a eficácia do tratamento, no abrandamento da dor, na redução da incapacidade, na obtenção da melhoria do bem-estar físico e da qualidade de vida da pessoa doente.
Como conseguir
ossos fortes
e saudáveis?
O exercício físico, quando executado corretamente e de forma ajustada à situação concreta é o melhor meio para prevenir e/ou tratar a maior parte das doenças reumáticas. A eficácia do exercício físico, não está no esforço aplicado de forma abrupta e dessincronizada, intensa e prolongada, em experiências realizadas durante alguns dias ou semanas, mas naquele que é executado de forma suave, progressivo, continuado, tecnicamente bem executado e durante a vida toda. A prática diária de exercício físico ajuda a corrigir as deformações desviantes da coluna vertebral, nomeadamente das cifoses, escolioses e lordoses. Pode também evitar as hérnias discais ou ajudá-las a corrigir. O sedentarismo e a inatividade músculo-esquelético-articular reduz a capacidade de mobilidade, diminui a irrigação e aumenta a rigidez dos músculos e articulações.
A alimentação é outro meio para se conseguirem ossos fortes e saudáveis. Uma alimentação saudável e equilibrada consiste na proeza em reunir, na mesma refeição, os alimentos adequados às necessidades do organismo, de modo a fornecer todos os nutrientes indispensáveis e em quantidades ajustadas a cada pessoa. Devem-se reduzir os alimentos proteicos (carne, peixe e feijão) para se evitar as uricemias (níveis elevados de ácido úrico no sangue. Os valores normais são: 6mg/100ml na mulher e 7mg/100ml no homem) e aumentar os alimentos fornecedores de vitaminas e minerais, entre eles o cálcio, magnésio e as vitaminas A e D, cujas principais fontes são os alimentos lácteos, ovos, fruta e vegetais verdes. A água é muito importante para o tratamento dos ossos, conservação da elasticidade e força muscular. É muito importante também na depuração do sangue e na eliminação do ácido úrico. Uma alimentação carente de cálcio potencia as desmineralizações ósseas e o aparecimento de doenças reumáticas.
