No dia 18 de janeiro, primeiro dia do oitavário pela unidade dos cristãos, católicos, metodistas e ortodoxos conversaram sobre a família – uma iniciativa por todos sentida como sinal muito positivo de que o diálogo ecuménico é uma realidade. Na família, há mais a unir do que a separar.
Pastor Eduardo Conde, metodista. Assumindo-se como alguém da tradição protestante e não tanto dos evangélicos, por vezes conotados com o fundamentalismo cristão, o pastor metodista reconheceu que há uma tradição liberal associada ao pensamento protestante nas questões da família. “O protestantismo não se imiscui muito na vida privada das pessoas, porque o Evangelho, a que cada um adere, deverá ser capaz de orientar as famílias”, disse. Por outro lado, não sendo sacramento o matrimónio, será errado pensar que a família não está no centro das preocupações pastorais metodistas. “A família é a célula fundamental para o equilíbrio de cada sociedade”, afirmou, “e a rutura de uma família, o divórcio, é sempre entendida como um falhanço”, ainda que não prive os seus elementos de participar na totalidade da vida da comunidade. “A Eucaristia e o Batismo (únicos sacramentos) nunca se negam a ninguém”. Mostrou-se ainda “inquietado” com as profundas alterações a que se assiste na família.
Padre Rocha, católico. Sendo o primeiro a falar, o pároco da Vera Cruz e juiz do tribunal diocesano congratulou-se: “Estarmos aqui, nesta unidade celebrada na diversidade, há uns anos, não pelos protestantes, mas um pouco pelos ortodoxos e ainda mais pelos católicos, seria impensável”. Depois, falou da unidade e indissolubilidade do matrimónio católico, o qual está fundamentado na entrega de Jesus à humanidade “como esposo” (Efésios) e na recusa por parte de Jesus do divórcio tolerado pela lei de Moisés, entre outras passagens bíblicas. P.e Rocha disse que a família é o “ambiente propício onde se pode ganhar perdendo” e realçou a vocação fundamental do ser humano para o amor. Ao dialogar com a assembleia, reconheceu que na preparação para o matrimónio há muito a fazer, num contexto em que a maturidade é tardia e os compromissos são frágeis. Nem todos têm vocação para o casamento católico. Talvez o casamento deva surgir só no fim de um percurso já de fidelidade. Mas nem isso é infalível.
Padre Ihor Yaremus, ortodoxo. A partilha com o padre Ihor poderia ter sido maior. Haveria perguntas a lançar. E as respostas seriam acolhidas com atenção. Mas a que houve foi em si mesma uma sessão prática das dificuldades (e desejo) do diálogo cultural e religioso. O padre Ihor falou em ucraniano, a sua mulher traduziu para inglês e o professor Jorge Carvalhais traduziu para português.
O P.e Ihor relatou que a sua igreja de S. Nicolau (em S. Bernardo), dependente de Constantinopla, é frequentada por 40-50 fiéis. Desde há três anos, realizou três casamentos, dois funerais e mais de 30 batizados. “A igreja é uma grande ajuda para as famílias. As pessoas pedem as opiniões e conselhos do padre”, disse. Em contexto cultural adverso, longe das raízes familiares, os imigrantes “procuram um pilar de suporte”. No final, o sacerdote disse que a sua confissão é “totalmente oposta ao divórcio”. Faltou esclarecer se, como noutros ramos dos ortodoxos, é permitido um segundo casamento, atendendo à fragilidade humana.
