Poço de Jacob – 64 Muitas vezes, lemos na Bíblia o termo “conhecer”. Normalmente, sabemos que é uma actividade intelectual humana, que é um fruto da nossa mente, a qual se admira com a realidade que acabamos de investigar. Todos conhecemos muitas coisas que nos são oferecidas pela experiência da vida, pelos estudos e leituras, pelas investigações e pelo testemunho das pessoas. Conhecemos, enquanto identificação de alguém, também os nossos lugares, família e amigos. Conhecemos os resultados de várias situações.
Porém, na Bíblia, o termo “conhecer” significa muitas vezes estar em intimidade afectiva e efectiva com Deus. De facto, não se trata de conhecer como nos exemplos acima citados, mas estar dentro um do Outro, Deus em nós e nós nele.
Conhecer não é só saber muito de Deus por termos estudado teologia ou participado em cursos ou cursilhos, que muitas vezes mostramos com orgulho como se isso representasse alguma coisa na Igreja, que só nos quer servidores de Jesus. Não vivemos de títulos ou sabedorias, sempre muito limitadas. Nem podemos ser testemunhas do Senhor se não mergulharmos nele. O termo exacto é “submergir” nele. Por isso, no capítulo 17 de S. João, Jesus fala muito de conhecer o Pai e conhecer Jesus e ser conhecido, na mesma linha que uns capítulos antes nos convida a permanecer nele e ele em nós. A vida eterna é definida por Jesus, neste capítulo de S. João, como conhecer o Pai e seu enviado, Jesus Cristo.
Maria diz na Anunciação que não conhece homem, quando lhe fora anunciada a sua maternidade. Ela já estava noiva de José. Viria a ser mãe no casamento, segundo as normas judaicas. Por isso, a sua observação parece descabida se não fosse o seu propósito de ser virgem.
S. João Baptista também disse no Evangelho do 2.º Domingo do tempo comum deste ano “Eu não o conhecia…”, apesar de ser seu primo. Trata-se de outro conhecimento já que a revelação de Jesus lhe permitiu ter acesso a muito mais do que o que veria no homem Jesus… Permitiu ver nele o Cordeiro de Deus que tira o pecado do Mundo, o Filho de Deus, “o que existia antes de mim, apesar de ter nascido depois”. Podemos voltar a ler o Evangelho deste Domingo e veremos como o conhecimento não foi uma explicação que lhe fora dada sobre Jesus. João Baptista penetrou na sua intimidade, amou-o, reconheceu-o como Messias e serviu-o dando a vida por Ele.
Isto interpela-nos, enquanto vemos que muitos de nós dizemos conhecer Jesus somente tendo notícia dele. Ouvimos falar dele nos livros de história, programas de TV, catequeses, cursos, teologias… Mas não passa de notícias. Não entramos na sua intimidade para o amarmos, pois diz S. Paulo que ninguém ama o que não conhece, e podermos provar efectivamente este amor pelas boas obras.
O sintoma de que estamos a adquirir este conhecimento é o nosso esforço de superação de nós mesmos e dos nossos defeitos. Podemos fazê-lo por motivos psicológicos, filosóficos, éticos, idealistas, por vaidade ou capricho, teimosia, temperamento ou sugestão. Mas a nossa superação como fruto do conhecimento bíblico de Jesus deve-se a entrarmos na sua intimidade e fazê-lo por amor, para o agradar, tendo pena e temor de o ofender, e com desejo de salvar almas. Esses devem ser os nossos motivos. A isso se chama apostolado.
Ser padre, bispo ou freira, leigo empenhado… não significa que o conheçamos deveras. A vida é que nos mostra se o conhecemos, através da intimidade que vivemos com ele e no modo como essa intimidade move nossa vida, mesmo no espontâneo. E temos de nos preocupar seriamente com isso, pois diz Jesus que na morte, batendo à sua porta, e até dizendo que comemos com Ele em Sua casa, corremos o risco de ouvir o que Ele disse que dirá a alguns que diziam conhecê-lo e trabalhar para ele: “Em verdade, não vos conheço… Apartai-vos todos os que praticais a iniquidade”.
P.e Vítor Espadilha
