Ilda Pires, formada em Ciências Religiosas, professora aposentada de Educação Moral e Religiosa Católica, colaboradora na catequese familiar e de adultos na paróquia de Esgueira, lançou recentemente o livro “A Cobra e o Pirilampo”. Este conjunto de “52 estórias com mensagem” é “um livro que ajuda a mudar de atitudes e de comportamentos”, afirma a autora. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – Com que finalidade recolheu as estórias e escreveu este “A Cobra e o Pirilampo?”
ILDA PIRES – Este livro pretende ser uma ajuda para mudar de atitudes e de comportamentos, uma ajuda para viver a vida com um certo nível de profundidade que não se adquire de qualquer maneira, mas só refletindo sobre a própria vida.
Essa profundidade é a espiritualidade?
Espiritualidade não é propriamente rezar ou ir à Igreja. Pode passar por aí, mas é perceber a vida por dentro, digamos assim, perceber os dinamismos que a acompanham, as energias que se conjugam, perceber o que as pessoas nos dizem só pelo facto de estarmos com elas. Espiritualidade tem a ver com tudo isso, sair daquele nível superficial no qual vivemos a maior parte do nosso tempo, a tratar disto e daquilo, a falar do tempo e da bola, da moda e dos penteados… É perceber que a vida é mais do que isso, tem outros níveis mais profundos que dão mais paz e que no fundo toda a gente quer.
Lançou há um par de anos o livro “Joias de Sabedoria”. Agora surge com este “A Cobra e o Pirilampo?” Estão dentro do mesmo género?
Sim, só que a organização foi diferente. “Joias de Sabedoria” foi uma coletânea que eu vinha reunindo há anos e que ia utilizando nas conversas, nas aulas, nas ações de formação com adultos. A certa altura alguém me disse: “Porque não publicar isto?” A ideia começou a tomar forma, um amigo apresentou-me Mónica Pires [professora de EMRC e ilustradora], que ajudaria imenso com as ilustrações, e organizámos o livro por temas: desenvolvimento pessoal, obstáculos, identidade, crenças, tempo… Começou por ser edição de autor, mas depois saiu nas edições salesianas. Pegaram nele, alteraram a capa… e fez-se uma segunda edição, creio que está toda vendida.
Este meu segundo livro pretende ser uma reflexão ao longo do ano, uma série de metáforas. A editora preferiu chamar-lhe estórias…. A ideia é dar um alimento para cada semana do ano, 52 metáforas.
Como é esse percurso? Trata-se de discernimento e crescimento pessoal?
Em cada metáfora há um ponto a trabalhar, por exemplo, as crenças limitadoras. “Eu não sou capaz” é uma crença limitadora. No caso da estória que dá o nome ao livro, estão em causa as nossas relações de trabalho, por vezes marcadas pela intriga. Há pessoas a quem o brilho do outro ofusca. A cobra, na segunda estória, quer comer o pirilampo porque não suporta vê-lo brilhar. Trata-se de atitudes comuns a todas as pessoas. Temos as nossas coisas no trabalho, na escola, em casa. Cada um a brilhar à sua maneira. Se calhar as pessoas teriam mais paz se reparassem nisso e trabalhassem esses comportamentos.
Somos cobras ou pirilampos?
Todos temos um pouco de cada. Como escrevo no comentário à metáfora, todos os dias vamos tropeçando em cobras. E em cada um de nós também há um bocadinho da cobra que não gosta de ver os outros brilhar. É importante perceber que cada um tem o seu próprio brilho, que não ofusca o dos outros. Nenhuma estrela impede os outros de brilhar.
O livro é composto de estórias da sua autoria e de outros autores, desconhecidos.
Também tenho algumas de autores citados. Este livro tem bastantes mais da minha autoria do que o primeiro.
Assume-se como colecionadora de histórias?
Sim, e depois as pessoas percebem isso e vão-mas mandando. Penso que tudo começou com a leitura do livro de Anthony de Mello, o “Canto do Pássaro”. Com essa obra ganhei o gosto por estas estórias. Fui utilizando algumas e com a formação em PNL – programação neurolinguística [desenvolvimento pessoal e profissional através de modelos, estratégias, palavras e crenças motivadoras] – percebi a importância destas metáforas para o crescimento pessoal, para a mudança interior e comecei a elaborar as minhas próprias estórias a partir da observação da vida. Estou a pensar em “Mulheres de excelência” e “Aprendizagem”. Passeando perto de um rio, vi um passarinho que ensaiava o seu primeiro voo e pensei que ele não conseguiria ultrapassar o rio. E, de facto, não conseguiu.
Caiu na água?
Sim, não conseguiu atravessar o rio. Era demasiado largo. Foi em São Pedro do Sul. Outra história, escrevi-a depois de observar uma massagista, nas termas, que mesmo ao fim do dia estava sempre com tão boa disposição… Perguntei quantas massagens tinha feito e eram muitas, já não me lembro. Estava admirada por estar tão bem disposta e diz-me ela assim: “E depois disto tudo, chego a casa, faço o jantar cuido dos meus filhos e ainda do meu sogro, que tem alzheimer”.
Essas estórias partiram da observação de casos da vida – um pouco como Jesus nas parábolas?
No fundo, o que Jesus fez? Observou a vida. Pegou na vida. Uma parábola vale mil discursos. Podemos dizer: “Não faças isto, não faças aquilo”. Mas se em vez disso contarmos uma parábola, uma história, a pessoa fica a perceber o que queríamos dizer, percebe melhor. As parábolas têm o dom de abrir múltiplos significados, de despertar o nosso inconsciente. A partir daí podem surgir as mudanças. Foi isso que Jesus quis fazer.
No entanto, não dá uma tonalidade religiosa aos seus escritos.
Quero que o livro seja aberto a toda a gente e não apenas àqueles que se identificam com a fé cristã. Há um ou outro texto que tem citações de Jesus, mas são citações muito livres e abertas. Não quero condicionar ninguém com o livro.
Mas há uma linha de fundo, implícita, de preocupação cristã…
Todo o trabalho de desenvolvimento pessoal, com as pessoas, tem por detrás, explícita ou não, uma matriz cristã. Todo o trabalho que faço para ajudar as pessoas a mudar as atitudes e comportamentos inscrevem-se nessa matriz cristã. Nós somos imagem de Deus, pois somos, mas somos uma imagem que precisa de ser trabalhada. Somos “mas ainda não”, somos mas não na totalidade. Na medida em que vou trabalhando esta imagem de Deus que trago em mim, vou pondo-a cá para fora, completando-a, para usar uma expressão de São Paulo. Todo este trabalho se insere numa matriz cristã. Não temos outra forma de o fazer.
Na paróquia de Esgueira, colabora na catequese familiar [pais e crianças do primeiro ano têm catequese ao mesmo tempo, com momentos em comum e separados; Ilda Pires, com mais alguns adultos, com linguagem e métodos adequados, orienta o grupo dos pais] e orienta um grupo de catequese de adultos. Também tem ensinado alguns grupos a meditar. A Igreja tem de fazer propostas inovadoras às pessoas?
Costumo dizer que só mudamos se fizermos coisas novas. Às vezes falta-nos coragem para inovar e renovar. É mais fácil repetir o que sempre fizemos do que sair da zona de conforto e avançar com coisas novas. Quando damos coisas novas, as pessoas aderem. Estão disponíveis e dispostas a frequentar. Como aderem tão bem, é sinal de que precisam e querem aquilo.
Arranjam tempo?
Claro que sim. Veja o caso da catequese do primeiro ano. É dada à sexta à noite, uma hora tão esquisita. O que é certo é que os pais vão com os filhos e estão lá de boa vontade. Se continuarmos a repetir aquilo que sempre fizemos, temos o que sempre tivemos. Precisamos, de facto, de coisas novas.
