Poço de Jacob – 93 Que mundo é este em que pessoas boas, até, estão tão cheias de tudo, de dores também, que já não conseguem apreciar a beleza? Para onde foi a poesia do existir?

Quando morrem os nossos pais, com o tempo – e o meu celebra 25 anos de partida para os braços de Deus no Natal de 2012 –, ficam as lembranças que procuramos conservar, sobretudo as boas.

O meu pai amava a vida com tudo quanto ela apresentava. Bem ou mal, procurava sempre algo de bom para continuar a viver, mesmo com o cancro que o aniquilou num ano. Sempre optimista e aceitando cada dia como ele vinha. Quando passeávamos em família, parava o carro para ver a beleza de um rio, ouvir o canto de uma ave, brincar com um gatinho ou cachorrinho, deliciar-se à beira mar, no pôr do Sol na linda praia da Barra, vibrar com o relato do futebol ou o comediante que o fazia estremecer de alegria, comer pipocas, ir ao cinema ou ao restaurante e trabalhar. Adorava estar com as pessoas e os pobres eram os seus preferidos.

Mas se havia uma coisa que o que o fazia vibrar de verdade era o arco-íris no céu num dia de tempestade. E se ele era duplo… que festa! Educou-nos assim, com essa sensibilidade de pai amantíssimo e marido que fez a minha mãe, viúva aos 48 anos, sentir-se uma mulher que foi realmente amada. E isso foi para ela grande consolação na viuvez e na saudade.

Um dia, numa minha paróquia, vi um arco-íris perfeito. Circundava toda a localidade como se de um diadema se tratasse. Tão nítido que parecia feito de betão e colorido por um mundo de artistas. O tempo estava sereno. A paisagem de cortar o fôlego. Senti a vida a entrar-me pelos olhos e por todos os sentidos. Quis partilhar. Estava só. O povo estava na capela à espera da Missa. Eu já estava atrasado. Não resisti. Fechar-me numa capela com tal espetáculo e aquela gente a perder tal visão. Instintivamente entrei e disse: “Gente, venham cá fora ver o arco-íris que se formou”. Fiquei petrificado. Não tive reações. Parecia que falava para pedras ou linguagem estranha. Afinal, arco-íris já os vemos desde que nascemos. Que novidade há nisso? Senti-me um palhaço, ridículo, sem graça, como quem conta uma anedota e ninguém se ri. Saí sozinho. Alguém veio ao carro buscar algo. Comentei a beleza e ouvi: “É lindo, é”. E seguiu caminho. Fiquei envergonhado. O meu pai teria parado o carro na estrada – e não passava de um estivador do cais comercial de Aveiro.

Mais tarde refleti: Para onde estamos caminhando, quando já não nos surpreende um arco-íris? Meu Deus, que mundo é este em que pessoas boas, até, estão tão cheias de tudo, de dores também, que já não conseguem apreciar a beleza? Para onde foi a poesia do existir? Se Deus escolheu o arco-íris para ser sinal da Aliança, por algum motivo foi. Ele não é símbolo de grupos, mas do coração de um Deus que te ama e faz Aliança de Amor contigo.

Se não se aprecia o arco-íris, como não se aprecia o gatinho que mia ou o passarinho que canta, os olhos da criança ou a beleza de uma flor do campo, a brisa suave e o barulho das ondas que beijam a areia da praia, então como se pode viver uma vida sem beleza? Será que a dureza da vida nos embota assim? Será que Deus já não diz canções e poemas de amor através das suas criaturas? O que moveu S. Francisco a dançar como um louco? Por isso, no domingo desafiei a comunidade a redescobrir a beleza do arco-íris, a beleza das coisas e a beleza das pessoas, da vida, da dor e da morte que nos projeta na eternidade. Não se tinham dado conta de que já não lhes interessava a beleza. Mas quem ama a Deus, ama o belo. É belo e torna belas todas as coisas. Parece que tudo aquilo fez com que eu e as pessoas nos esforçássemos mais por estar atentos ao essencial que não está, afinal, tão escondido aos nossos olhos como poderia parecer.

Vitor Espadilha