Aveirenses Esquecidos Joaquim Duarte (1923-1996) foi militar, fomentador da actividade desportiva, jornalista em Aveiro e Angola e historiador da Aviação Naval.
Com os livros “Hidro-aviões nos céus de Aveiro” e “A mística de Aveiro na Aviação Naval”, Joaquim Nunes Duarte deixou um valiosíssimo contributo para a história da Aviação Naval em terras aveirenses, muito em especial em S. Jacinto. Para além dessa faceta de divulgador, Joaquim Duarte foi militar, atingindo a patente de capitão, jornalista (da escrita e da rádio), desportista (em diversas modalidades) e dirigente associativo.
Joaquim Nunes Duarte nasceu em Coimbrões (concelho de Vila Nova de Gaia), no ano de 1923, e faleceu em Aveiro, há 15 anos (1996), estando sepultado no cemitério central desta cidade.
Luís Filipe Duarte, filho de Joaquim Nunes Duarte, sublinha que o seu pai descende de famílias humildes de Vila Nova de Gaia. “Foi matriculado no curso industrial da Escola Infante D. Henrique, no Porto, até ter idade para trabalhar (que nessa altura andaria pelos 15 anos), dando lugar na escola ao irmão mais novo, como era costume naquele tempo. Por «favor» dos seus chefes directos, continuou os estudos à noite, concluindo o curso industrial, que aliou ao excepcional desempenho como andebolista ao serviço do clube da empresa, o Grupo Desportivo dos Ferroviários de Campanhã, para onde entrou em 1939, com 16 anos”.
“Foi no duro trabalho das oficinas da CP, onde entrou como moço de fretes e se manteve como aprendiz de mestres que nada queriam ensinar”, e “farto de uma vida sem perspectivas algumas de se afirmar” que “o miúdo Joaquim Nunes Duarte um dia se abalançou a responder ao anúncio que pedia voluntários para a Aviação Naval. Mãe extremosa compôs-lhe um pequeno farnel, e ei-lo que abala até Lisboa para prestar provas”, recorda Luís Filipe Duarte, que evoca o regresso do pai “às sujas e lúgubres oficinas da CP nas Devesas”, onde “arrostou com o gozo dos que, sem formação alguma, achavam que ele estava a querer ir além da chinela, ao mesmo tempo que não entendiam como alguém poderia desdenhar «um emprego tão bom na CP»… Entre estes, o próprio chefe das oficinas, que no fim acabaria por lhe dar um louvor”. Mas, dois meses depois veio “a ordem de marcha, e ei-lo que assenta praça em S. Jacinto”. A família (esposa e filha) instala-se em Esgueira.
Militar em Angola
Na década de 1960, Joaquim Duarte foi destacado para Angola (Luanda), onde cumpriu serviço na BA 9 e no BCP 21.
Como militar, foi mecânico distinto, tendo ido aos Estados Unidos para aperfeiçoamento e especialização. Um acidente em Monte Real, num Junker 52, fê-lo “perder a especialidade”, passando para o Serviço Geral, como era regra na altura.
Dos louvores recebidos por Joaquim Duarte, o filho destaca um, não «lavrado», que “lhe foi transmitido oralmente por elemento da cadeia de comando, sensibilizado por ter deixado a vaga para o curso de oficial superior a um companheiro de armas que na altura padecia de doença pulmonar”, pelo que se ficou pela patente de capitão, desistindo “da vaga que lhe cabia a favor de um companheiro mais necessitado, também oriundo da Aviação Naval”.
Joaquim Duarte dinamizou e geriu a construção de um parque de campismo num terreno que a Base já não utilizava, e que hoje é um dos mais valiosos patrimónios da frequesia de S. Jacinto.
Para Luís Filipe Duarte, é relevante que do seu pai nunca “houve soldado que dele um dia se queixasse de despotismo ou de abuso de poder. Pelo contrário, era ele a quem mais os praças recorriam na hora de obter uma dispensa de pernoita ou um passaporte de um par de dias para uns biscates lá fora, que ajudassem ao sustento do lar”.
Jornalista e colaborador
da Rádio Ecclésia de Angola
A par da actividade desportiva, Joaquim Duarte iniciou uma longa colaboração com a imprensa, primeiro, no extinto semanário aveirense “Litoral”, depois no “Norte Desportivo”, “para ali levado pela mão amiga do também saudoso, e ilustre entre os ilustres, João Sarabando”, sublinha Luís Filipe Duarte.
Em Angola, a par da carreira militar, Joaquim Duarte “foi incumbido de dinamizar a secção desportiva da Rádio Ecclesia, Emissora Católica de Angola, pelo seu director, o bom padre José Maria de Almeida”, recorda Luís Filipe Duarte, que prossegue, dizendo que foi “uma colaboração de tal maneira gratificante para ambas as partes que o Joaquim Duarte, roído pelas saudades, não descansou enquanto não voltou a Luanda, tendo chegado, entre 1963 e 1973, a cumprir três comissões de serviço. Mais não era possível, face aos regulamentos militares”.
De regresso a Aveiro, Joaquim Duarte reassumiu as lides no desporto e nos jornais. Primeiro na delegação de “O Comércio do Porto”, depois numa breve passagem pela Rádio Independente de Aveiro e pelo semanário “O Aveiro”, como colunista.
Como dirigente desportivo, Joaquim Duarte “esteve na organização de prémios de ciclismo de prestígio ibérico, o que aconteceu por 12 anos consecutivos, e que ficou a marcar o momento mais alto e mais prolongado, no tempo, da Associação de Ciclismo de Aveiro”. Nas suas passagens pela Associação de Atletismo de Aveiro, pugnou pela construção de uma pista permanente de tartan que servisse os atletas de todo o distrito. Passou ainda pela Associação Distrital de Árbitros de Basquetebol e pelo Sporting de Aveiro.
Historiador
da Aviação Naval
Quando passou à reserva, Joaquim Duarte “chamou a si a tarefa de escrever a história dos gloriosos dias da Aviação Naval” e a dinamização da Associação dos Antigos Elementos da Aviação Naval, tendo organizado, durante vários anos, o almoço de romaria e homenagem aos pioneiros, conseguindo também “congregar vontades que tornaram possível erigir o monumento à Aviação Naval, em Aveiro, e sensibilizar os edis aveirenses para a justa homenagem, em forma de nome de rua, à sua querida Aviação Naval”, relata Luís Filipe Duarte, que acrescenta, contudo, que “a nobreza de carácter do Joaquim Duarte foi o maior legado que ele nos podia deixar”.
Cardoso Ferreira
Praticante de várias modalidades desportivas
No andebol, para além de “exímio praticante”, Joaquim Duarte foi também introdutor da modalidade em Aveiro, com uma equipa do Beira-Mar. No entanto, como realça o filho, já nessa altura “o andebol era apenas um seu «segundo amor» na área desportiva, pois o futebol já lhe fervia no sangue, tendo começado a conquistar os primeiros louros em representação do Sporting Clube de Coimbrões”.
Com a sua chegada a Aveiro, rapidamente Joaquim Duarte é contratado pelo Beira-Mar, “clube a que ficaria afectivamente ligado para sempre, e ao serviço do qual chegou a sagrar-se o melhor marcador de futebol da segunda divisão”.
Mas o andebol continuava na mente de Joaquim Duarte, que não descansou até criar a secção de andebol do Beira Mar. Para tal, e como relata o seu filho, “arregimentou um punhado de militares em S. Jacinto, convenceu o famoso guarda-redes de futebol Violas a assumir também a baliza pequena, e eis que o Beira-Mar iniciava a prática do andebol na cidade dos canais. De sete e de onze, pois claro, como antigamente era prática!”
O filho de Joaquim Duarte revela que “o bichinho e o jeito inato levam-no a abraçar também o basquetebol, primeiro como jogador e depois como treinador, no Sangalhos Desporto Clube. A ele, ficou o clube da Bairrada a dever a construção do pavilhão, ao lado da velha pista, uma obra que na altura ascendeu a 400 contos e que ombreava com o que de melhor existia na época”.
Em Luanda, a par do trabalho desenvolvido na esfera militar, desenvolveu “o completíssimo parque desportivo do BCP 21, feito com a “prata da casa”, como ainda hoje acontecerá nos quartéis. Mas o que ali ficou, em Belas, orgulharia qualquer unidade de engenharia que se dedicasse à construção de equipamentos desportivos, até de sala de musculação e quadra de boxe e judo dispunha”, realça Luís Filipe Duarte, adiantando que foi do pai a “iniciativa de levar a Angola, para uma memorável volta ao território, a equipa de ciclismo profissional do Sangalhos, onde pontuavam entre outros Joaquim Andrade, que viria a vencer uma volta a Portugal, Celestino de Oliveira, um dos melhores trepadores de sempre, e Mário Silva, que chegou a representar o F.C. do Porto”.
