Sabedoria de Deus

«Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os homens, mas sabedoria de Deus para os que são chamados».

É assim, contrapondo a sabedoria humana à sabedoria de Deus, que Paulo começa a sua primeira Carta aos Coríntios. E a sabedoria de Deus é a totalidade do mistério de Cristo, isto é: o Verbo eterno de Deus, que oculta a Sua divindade na pequenez da nossa humanidade e assume por inteiro as suas limitações, até à ignominiosa morte na Cruz, para superar todas essas nossas limitações, vencendo a morte.

Esta é a sabedoria que ilumina todos os meandros da vida humana. É a pessoa de Jesus Cristo, no que faz e no que diz, no que vive, que nos permite compreender a nossa existência, o sentido das coisas, o objetivo final da nossa peregrinação neste mundo.

A sabedoria humana faz cálculos, traça planos, com rigor, dentro da lógica matemática, conferindo todos os indicadores económicos e sociais, respeitando todas as hierarquias, equacionando todas as hipóteses… E falha redondamente, em muitas situações, voltando contra a própria pessoa humana os avanços da mesma “sabedoria”.

A olho nu se percebe que o fracasso de tantas belas conquistas da humanidade resulta da atitude dos humanos. Espíritos soberbos de autossuficiência, minados pelo egoísmo, na mira de um bem estar rápido e fácil, em busca de lugares de domínio e poder.

A presença da sabedoria de Deus, hoje, é mediada pela Igreja. Que outra atitude não pode ter a não ser a do Mestre: “Fiz-vos isto, para que o façais também aos vossos irmãos” – diz o Senhor, ao acabar de lavar os pés aos seus discípulos.

A Igreja não é enviada ao Mundo, porque vive no mundo. A sua existência só tem uma razão de ser: servir ao Mundo esta sabedoria de Deus. A sua essência é tornar-se, cada vez mais visivelmente, este serviço humilde: “Nenhuma ambição terrena move a Igreja; ela tem em vista um só fim: continuar, sob o impulso do Espírito Consolador, a obra do próprio Cristo, que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para condenar, para servir e não para ser servido” – GS 3.

Um caminho excelente de revisão de vida nesta Quaresma, para todos e cada um dos cristãos, para as estruturas e serviços da Igreja, para as diretivas e projetos pastorais. Só a humildade de quem se identifica totalmente com as fragilidades do mundo, para nelas viver a pujança da vida de Deus, credibilizará o anúncio e o tornará Boa Notícia.