Ana Sofia Reboleira alia a biologia à espeleologia, o que já lhe permitiu descobrir em grutas 11 novas espécies animais, geralmente insetos.
São insetos primitivos, não têm asas nem olhos, e foram descobertos a quase dois quilómetros de profundidade na gruta mais profunda do planeta. As cinco novas espécies de insetos nunca antes vistas por olhos humanos foram encontrados por Ana Sofia Reboleira, investigadora do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro (UA), na gruta Krubera-Vorónia, localizada na região da Abkhazia, no Norte da Geórgia e perto do Mar Negro, com 2191 metros de profundidade. Juntam-se às seis outras espécies anteriormente identificadas em Portugal, no Algarve e na Serra de Montejunto.
Os insetos da Gerógia medem entre um e quatro milímetros, dão por nomes como “Anurida stereoodorata”, “Schaefferia profundisima” ou “Plutomurus ortobalaganensis”. Este último, encontrado a 1980 metros de profundidade, é mesmo o animal subterrâneo terrestre mais profundo até agora conhecido pela ciência.
“Estes animais são tipicamente espécies cavernícolas, chamados troglóbios, animais adaptados à vida no meio subterrâneo. Vivendo num ambiente onde não penetra a luz solar e onde o alimento é escasso, estes animais são despigmentados, sem olhos e com estruturas sensoriais muito desenvolvidas e muito raros”, descreve a cientista.
A descoberta de Sofia Reboleira, e do colega espanhol Alberto Sendra, do Museu Valenciano de História Natural, aconteceu em 2010, mas só agora chegou à revista científica “Terrestrial Arthropod Reviews”, obtendo o reconhecimento da comunidade científica.
Natural das Caldas da Rainha, Ana Sofia Reboleira prepara na Universidade de Aveiro o doutoramento com uma tese sobre fauna cavernícola de Portugal.
Três perguntas a Ana Sofia Reboleira
“A espeleologia é uma atividade perigosa e requer formação específica”
Participou na identificação de quantas novas espécies?
Seis novas espécies em Portugal (um pseudoescorpião e cinco insetos) e cinco novas espécies na gruta Krubera-Vorónia, situada na Abecássia, Cáucasso Ocidental (um escaravelho e quatro colêmbolos).
Alia a biologia à espeleologia. Alguma vez sentiu perigo na atividade?
A espeleologia é uma atividade perigosa, por isso, requer formação específica. Uma formação apropriada e a utilização correta das técnicas e materiais reduzem consideravelmente os riscos inerentes à exploração das grutas. No entanto, existem muitas variáveis imprevisíveis, como as quedas de pedras ou as inundações. No caso da gruta Krubera-Vorónia, cujo desenvolvimento é predominantemente vertical, é necessário ter em conta que as temperaturas são muito baixas, oscilando entre 0,5 – 5ºC, e o perigo de hipotermia é constante.
Está a preparar tese sobre conservação dos sistemas cavernívolas. Pode especificar?
O meu trabalho de doutoramento é sobre a conservação de fauna subterrânea em Portugal, com uma abordagem ao seu conhecimento, na qual se descreveram já algumas espécies novas para a ciência e sobre a proteção desta fauna, que é um património nacional único.
