Era o seu nome. 58 anos de clausura no convento das Monjas Jerónimas de São Paulo, na cidade de Toledo, em Espanha. 82 anos de vida. Morreu santamente no passado dia 21 de janeiro de 2012. Dizia que Maria vinha buscá-la. Toda a sua vida foi em função desse momento. Vivia preparada para partir. O céu era para ela uma realidade. Por isso, nós que a conhecemos, definimo-la pela sua alegria permanente e sua humildade.
O seu amor à Igreja e ao sacerdote. A sua vida imolada pela salvação dos homens. Cada pessoa que aparecia no locutório era acolhida como se fosse única no mundo. Não tinha pressas. Muitos a procuravam, sobretudo os seminaristas. Considerava-se irmã de todos e sempre guardava um presente para cada um, sobretudo caixas de bolachas que as irmãs faziam ou ganhavam, para animar o estudo quando estivessem sozinhos no quarto. Não saía do convento senão para o médico e isso de há anos a esta parte, pois antes era o médico que as visitava. Mas sabia das misérias à sua volta. Procurava sempre alguém influente que fosse ao encontro desta ou daquela família carenciada, cuja notícia chegava ou pela própria família ou pelo comentário de algum visitante naquelas inesquecíveis tardes de domingo que passávamos com ela numa alegria e fé em Jesus que nos unia tanto.
Estar na clausura, para ela, era a maior graça recebida. Tinha a sua vocação plenamente integrada na sua personalidade. Não era uma mulher traumatizada que se refugiou nos conventos, como dizem os que não entendem a vida enclausurada. Ali sentia-se verdadeiramente livre.
Impressionava-me. Naquele bairro de conventos de clausura, lado a lado, aquele era um T1 na arquitetura dos conventos. 20 freiras fechadas num convento que não tinha um jardim sequer. Nem um bosque. O claustro estava cheio de vasos de plantas. Mas as irmãs não tinham mais nada senão salas para viver e trabalhar. Poderia parecer um ambiente frio, desumano. Mas estavam sempre tão felizes! O seu jardim era a paisagem interior. Viviam nos campos e searas do íntimo do seu ser. Ali descobriam a verdadeira alegria do existir e do se dar.
Quando ouvimos, com tristeza, a notícia da morte de artistas tão grandes, vítimas de depressões e drogas, quando tinham materialmente tudo para serem felizes, admiramo-nos por aquelas irmãs ali fechadas, esta há quase 60 anos, num ambiente sem jardins nem campos, pois tudo à volta eram construções e estradas, conseguirem a felicidade, quando os homens pensam não ser possível se não for na posse de bens e momentos que nos alienem dos problemas.
Penso no nosso Carmelo de Aveiro. Casa invejável, onde cada vez mais mulheres buscam o seu lar. Já são dezoito irmãs e nelas sentimos a mesma alegria de quem se dá sem medida e sente nas irmãs a sua família. Naqueles corredores, cela e jardins, no trabalho e na oração, vivem a sua verdadeira felicidade.
Lembro aquela poesia de Santa Teresinha, que diz que no carmelo encontrava as coisas lindas que descobrira na natureza quando andava pelo mundo exterior. E terminava assim: “Que mais posso querer, se tu, Jesus, és meu? Quanto há de bom na terra em Ti se encerra. Tu és a flor que busco sobre a terra. Tu és o Céu”.
Soror Anunciación, descansa em Paz. Vejo-te livre, voando nas asas do Amor, tão livre como sempre te sentiste, mas desta vez vendo os olhos amorosos que um dia te atraíram para viveres na terra, como que exilada, à espera da pátria prometida. Que no jardim de Deus encontres todas as belezas e que o teu sorriso nos ajude a ver a nossa vida mais iluminada.
Vitor Espadilha
