Decorreu no dia 3 de março o II Simpósio Fé e Cultura, promovido pelo ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro) e dedicado à família. Das seis conferências repletas de interesse para a pastoral da família, para testemunhar a família cristã em sociedade ou simplesmente para viver como família, aqui ficam alguns ecos. Textos de Jorge Pires Ferreira.
João César das Neves
Economista
“Trabalhamos cada vez mais para quê? Para ter mais que gastar no tempo livre. Trabalhamos tanto que adiamos a família. Depois vemos aqueles de cabelo grisalho, na praia, com bebés ao colo. Pensamos que são netos, mas são os filhos”.
Vítor Gomes Teixeira
Historiador
“Durante séculos, o casamento realizou-se entre famílias, para não se dispersar o património. A Igreja contrariava a tendência proibindo casamentos entre pessoas demasiado próximas nos laços sanguíneos e aconselhando a affectio conjugalis” (amor conjugal).
Júlio Franclim Pacheco
Biblista
“Era aos filhos adultos que se destinava o mandamento «honra teu pai e tua mãe», que tem este sentido: «Escuta todo o seu ensino». Pretendia-se provocar o reconhecimento do lugar que eles têm na sociedade. E é preciso notar que pai e mãe estão no mesmo plano”.
Isabel Varanda
Teóloga
Uma boa família é o melhor dom que podemos ter. A família cristã é chamada a ser imagem da família divina. É um sacramento natural de Deus-família. Por isso, João Paulo II disse: “Torna-te aquilo que és”, porque, por essência, é imagem de Deus.
Fernando Castro
Presidente da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas
“Só deixarei de educar os meus filhos quando morrer. Tenho filhos casados que de vez em quando dizem: «Ó pai, preciso de falar consigo. Ó mãe, preciso de falar consigo». Só deixo de ser educador quando Deus quiser”.
Juan AmbrOsio
Teólogo
“Num contexto de pluralismo, temos de repensar o nosso dizer e testemunhar Deus. Temos de voltar a narrar a fé, contar a história que dá sentido à nossa existência, como quem contempla a verdade e não como que a domina”.
FAMÍLIA E ECONOMIA
Os heróis do nosso tempo estão na defesa da família
“A crise económica são trocos. Três ou quatro anos e passa tudo. A crise da família é de fundo. É a questão do nosso tempo, é aquela que nos compromete”, afirmou João César das Neves. O professor de economia da Universidade Católica Portuguesa (UCP) recusou-se a estabelecer uma ligação entre crise económica e crise da família. “É capaz de ter alguma coisa a ver, como a economia também pode ter a ver com o resultado do Benfica-Porto [jogo que se realizara na véspera], mas o essencial não é isso”, disse. Realçou, por outro lado, a transformação cultural que tira valor ao lar e à família, “quando achamos que o sítio fundamental da realização humana, o lar, já não vale nada”.
A transformação cultural, com óbvias ligações à economia, ainda que não com a crise, centra-se no “desprezo pelo trabalho da casa”. Remetendo para um conto de Charles Péguy, João César das Neves afirmou que “já não se vai para a floresta, lugar dos perigos, ganhar o sustento da família, mas para o conforto do escritório; já não se trabalha para sobreviver, mas para a realização pessoal; e é mais fácil aturar o chefe do que a mulher”.
Deixando com visível desconforto Ana Seiça Neves, a advogada aveirense que moderou o primeiro painel, João César das Neves afirmou que as mulheres, no seu desejo de emancipação, querem ter o que “os homens sempre tiveram”, pelo que “aceitaram como regras as dos homens”, no que teve como resultado prejuízos para a família. “Só não estão na política porque são espertas”, disse.
A mentalidade que leva a procurar a realização pessoal fora de casa é a mesma que apela ao esforço constante para se ser jovem. “Hoje as pessoas vivem de costas. Antigamente, havia o céu, hoje o paraíso é ser jovem. Todos querem ser muito rebeldes e jovens e riem todos com a mesma piada pré-formatada”.
João César das Neves considera que o campo em que se determina quem é herói no nosso tempo é a família como a Igreja a propõe, pelo que o cristão tem de “acreditar que pode mudar” o panorama e tem de se interrogar sobre “em quem tem fé para acreditar que pode mudar”. Nesta linha, apontou como entende a “resposta cristã”. Lembrando o milagre de Jesus nas Bodas de Caná (João 2), disse que o cristão tem de estar lá como Jesus estava no casamento, tem de ver o que os outros não veem, como Maria viu a falta de vinho, tem de fazer tudo o que Ele disser. Isto passa também por ouvir a Igreja, que “diz coisas únicas que ninguém mais diz” e por aceitar “a coisa mais poderosa que Deus dá ao povo, o Espírito Santo”.
Solicitado a concretizar princípios de política familiar, principalmente na questão do inverno demográfico (diminuição do número nascimentos que, a longo prazo, leva à extinção dos portugueses), o professor de economia notou que os casais portugueses até gostariam de ter mais filhos, pelo que sugeriu que, em primeiro lugar, é preciso envolver as famílias e ver o que elas querem; por isso, não se deve criar burocracias e sistemas à maneira napoleónica, centralizadora; é preciso dar os meios às próprias famílias e não às estruturas e serviços que só criam mais clientela partidária; e seguir os bons exemplos do norte de Itália e de países nórdicos.
CASAMENTO NA BíBLIA
De mero contrato a pacto de amor
Não devemos olhar para a Bíblia pensando que nos apresenta quadros familiares muito edificativos. Também os tem. Mas, na questão da família como noutras, “a Bíblia realça mais o plano divino do que a exemplaridade humana”, afirmou P.e Júlio Franclim.
Apresentando sumariamente episódios como o de Caim que mata o irmão Abel (“começa mal”), as complicações, aos olhos de hoje, da descendência de Abraão com Sara e as escravas, a infidelidade do rei David ou a poligamia de Salomão, o professor de Sagrada Escritura realçou que na Bíblia “Deus salva o povo não por causa de critérios morais, mas porque quer”. Claro que há, também, os bons exemplos familiares de Rute e de Tobias, mas o fio condutor da Bíblia é que Deus é fiel, mesmo que o povo não seja.
Precisamente a imagem da fidelidade conjugal está no centro da pregação dos profetas, que viram na saída da escravidão do Egito um noivado entre Deus e o povo. Por isso, quando o povo adora outros deuses ou se esquece do decálogo está a ser como uma mulher infiel. É hoje claro que a condição da mulher nos tempos bíblicos não é modelo para os tempos atuais. Estava sempre dependente de um homem – o pai, o marido, o filho, o cunhado (se ficasse viúva sem filhos) – ou caía na miséria. Mas há que realçar que “quatro dos dez mandamentos defendem a mulher: o 4.º, o 6.º, o 9.º e o 10.º”. Por outro lado, porque a esterilidade, sempre pensada no feminino, era motivo de repúdio e divórcio, a invocação por Jesus do projeto original de Deus (“no princípio não foi assim”) contra o repúdio é um passo decisivo para que a mulher deixe de ser posse de alguém e aconteça a dignificação do matrimónio. “A imagem de Deus é a humanidade, «criados macho e fêmea». O par humano é imagem de Deus em conjunto, na medida em que entra em relação entre si”, afirmou. O passo final será na Carta aos Efésios, da escola paulina, quando o par Cristo/Igreja se torna modelo para a relação marido/mulher. São Paulo, resume o biblista, “faz sair o matrimónio do simples contrato para o recíproco amor”. Quando se lê a passagem paulina num casamento, há quem não goste de ouvir que “o marido é a cabeça da mulher”. Parece retrógrado. Mas a passagem que diz que “quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” foi verdadeiramente revolucionária para as mentalidades.
POLÍTICAS ANTIFAMÍLIA
Querem atingir o que há de mais agrado
Fernando Castro defendeu que há uma vontade deliberada de atingir a família: “A família é uma ameaça. Por isso, querem baralhar e alargar o conceito de família. Querem atingir as coisas que são mais queridas, mais sagradas, o que é querido de Deus. A destruição da família começa pela linguagem, quando nos apresentam as «famílias unipessoais». Família é um substantivo coletivo. Falar em famílias unipessoais é como falar em rebanhos de uma só ovelha. Não existem”.
O presidente da APFN (Associação Portuguesa de Famílias Numerosas) reconhece que há bons princípios legislativos na ONU, na Europa, na Constituição Portuguesa. O problema é que as políticas governamentais são “claramente antifamília”. E apontou exemplos: liberalização do aborto, casamentos de pessoas do mesmo sexo, divórcio “express”, aumento das taxas moderadoras (mas “isenta-se o aborto”), não consideração dos filhos para efeitos fiscais, entre outros. Mas as famílias também não ficam bem na fotografia. “Não foi o governo que fechou as escolas. Foram as famílias que fecharam as escolas. O governo limitou-se a atirar três pás de terra para enterrar a escola”, referiu, apontando com gráficos que o número de professores no desemprego corresponde exatamente aos que seriam necessários se não houvesse um défice de natalidade de há duas décadas para cá.
Pai de 13 filhos (com idades entre 10 e 37 anos) e avô de 21 netos, Fernando Castro é pelo casamento católico e com prática religiosa, “fator de estabilização da conjugalidade”, e manifestou-se contra o “viver juntos” antes do casamento, algo que é cada vez mais consentido “até por paizinhos católicos”. Terminou a sua intervenção com conselho: “Felicitem, segurem, agradeçam as famílias que têm”.
DESAFIOS À IGREJA
É preciso voltar narrrar a fé
que dá sentido global à existência
Na última conferência, o teólogo leigo Juan Ambrosio citou à partida o Concílio Vaticano II, que afirma que “o bem-estar das pessoas e da sociedade humana e cristã está intimamente ligado com uma favorável situação da comunidade conjugal e familiar” (GS 47), e realçou que a “proposta cristã é para a globalidade da vida humana”.
No entanto, afirmou que existe “um certo mal estar” quando se fala da missão eclesial. Apesar de esta ser um “traço característico da identidade cristã”, precisa de ser repensada, pelo que sugeriu algumas pistas para entender a solicitude pastoral da Igreja e os desafios pastorais que a família representa. A primeira passa por ter consciência que “não é a Igreja que tem uma missão; é a missão que tem uma Igreja”, o que pode mudar muito, pelo menos as atitudes das pessoas da Igreja. Por outro lado, no agir cristão, há que evitar perigos como pensar que “há um profundo antagonismo entre a realidade e o cristianismo” ou imaginar que uma determinada época assumiu o cristianismo na perfeição (a “cristandade”). Há que evitar um cristianismo light (que só aceita certos aspetos da proposta cristã), mas também um cristianismo burguês (acomodado, do “meu bem-estar”, da “minha salvação”). Há que evitar apresentar determinada proposta como “a única resposta verdadeira e certa”, mas também que todas sejam tidas como certas e válidas.
Juan Ambrosio afirmou que, num tempo de família pós-familiar é preciso voltar a “narrar a fé que dá sentido global à existência”. Família pós-familiar é a família que existe e não a ideal. É a tradicional mais a monoparental, mais a de parentescos eletivos, aquela em que há filhos “meus, teus, nossos e aqueles”. É aquela em que casamento e família já não têm relação direta e imediata. Como a proposta cristã é para todas as pessoas, o teólogo considerou que o testemunho dos crentes deve descobrir o valor teológico da experiência humana, assumir uma presença pública comprometida com a justiça e viver com alegria o seu ser cristão.
Concretizando, Juan Ambrosio, casado, pais de dois filhos, testemunhou que vive a sua conjugalidade convicto de que “o amor traduz o mistério de Deus”. E acrescentou: “O exercício da vida familiar visibiliza a presença de Deus na história. A experiência da salvação acontece não apesar da vida, mas precisamente no viver a vida”.
