Matrimónio, um caminho a dois Primeiro, deixem-me situar esta pergunta. Ela apareceu depois do debate havido sobre a família na semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Tinha-se falado do conceito de casamento e de família, particularmente entre católicos e protestantes e, como todos sabemos, para os protestantes o casamento não é um sacramento mas apenas um ato religioso, daí um conjunto de exigências a que poderemos chamar de direitos e deveres que nos separam uns dos outros, o que é natural, dado o ponto diferente de onde partimos. E foi neste contexto, até por aquilo a que chamamos de situações irregulares matrimoniais perante a Igreja – que não existem nos protestantes –, que veio a referida pergunta: Por que é que a Igreja se mete sempre nestas coisas da família?
A resposta penso que é muito simples e pode ser assim: o caminho da Igreja é o caminho do homem e da mulher que a Igreja não pode abandonar porque essa é a vontade de Deus espelhada desde a criação e faz parte da sua missão evangelizadora. Seria negar-se a si mesma se deixasse de anunciar a verdade sobre a família. “…É uma necessidade que sente arder-lhe dentro…”, para utilizar uma expressão do Papa João Paulo II na Exortação Apostólica depois do Sínodo sobre a Europa, “mete-se nisto…” – e desculpem mais uma vez a expressão, porque não pode deixar de se meter para ser fiel a si mesma e à sua própria missão que lhe vem, como todos sabemos, de Jesus Cristo.
Mais ainda, como já dissemos na primeira reposta (ver CV da semana passada), a Igreja pretende manter uma lógica consequente com duas afirmações básicas de onde parte, e que lhe são dadas pelo livro dos Génesis, isto é: que Deus é o autor do matrimónio e que a família é a célula base da sociedade e, por isso, sujeito de direitos e deveres ainda antes dos Estados e de quaisquer outras sociedades. Partindo daqui, em relação a tudo aquilo que possa ir contra esta lógica, a Igreja “tem” de ser contra. A título de exemplo, para ser fiel a este conjunto de verdades, a Igreja, a quando do Sínodo dos Bispos sobre a família, viu-se na necessidade de propor um conjunto de direitos da família “contra as intoleráveis usurpações da sociedade e do Estado…”. Surgiu, assim, a Carta dos Direitos da Família apresentada pela Santa Sé a todas as pessoas, instituições e autoridades interessadas na missão da família no mundo contemporâneo em 22 de Outubro de 1983. Ainda hoje – passados mais de trinta anos –, vale a pena revisitar este texto porque aí encontraremos a família como a Igreja a entende revestida dos seus direitos fundamentais. Deixem-me concluir com uma expressão popular de cariz romântico: A família é a menina dos olhos da Igreja porque já foi um sonho no plano de Deus.
Na próxima semana: Por que é que a Igreja considera o matrimónio como um sa-cramento?
Manuel Joaquim Rocha
