A Árvore de Zaqueu Muito pouco. Sendo nós tão «importantes» na escala animal, por que é que nascemos tão frágeis e tão frágeis continuamos durante tantos anos?
É por isso que a vida depende, até ao fim, do carinho de quem nos rodeia. Em termos de qualidade de vida, e não apenas de sobrevivência, é falso dizer que alguns anos chegam para nos podermos desenvencilhar neste mundo. Na realidade, muita gente definha e morre até, por não encontrar, ao longo das diferentes fases da vida, o “segundo útero” (ou “útero social”) que nos permite consolidar a personalidade e desenvolver as potencialidades; um “segundo útero” que estrutura e fortalece o nosso poder de interacção, ensinando-nos a dar aos outros um carinho criador. E não é questão apenas do grupo da família, dos amigos ou dos que trabalham à nossa volta. É o grande grupo da nação ou de uma união europeia: será que as leis, as directivas, os projectos… reflectem uma genuína preocupação pela saúde total de cada ser humano?
As leituras de hoje dão a entender que nesse “útero” é que se forma o sabor da vida e um coração que, à medida que vai pulsando, vai afirmando e transmitindo vida. Esta vontade colectiva é fonte de prazer, mas também tem o seu preço: no empenho por criar condições de interacção positiva, estamos a dar a própria vida para que haja mais vida. São as pequeninas mortes do dia-a-dia. Todavia, porque cada uma dessas pequeninas (ou grandes!) mortes é fonte de mais vida, o nosso dia-a-dia é feito também de pequeninas (ou grandes!) ressurreições.
O evangelho fala de «desprezar a vida», para que a vida dê muito fruto. Essa expressão semita significa estar disposto a reconhecer que há valores sem os quais a própria vida perderia sentido e até aquele sabor genuíno que só os seres humanos têm o dom de descobrir. Valores que orientam e defendem a pessoa.
Cristo escolheu orientar a vida pelo amor: amou, sem se envergonhar de o dar claramente a entender («Amor» é de facto palavra gasta – sobretudo na publicidade e novelas de todos os tipos; mas também o é na esfera religiosa, ao ser usada quando não se sabe o que há para dizer nem o que quer dizer, ou ainda para desculpar o que não passa de boas intenções).
Os seguidores de Jesus, desde o princípio até aos nossos dias, defrontam-se com o preço a pagar para serem coerentes com os princípios da justiça. Há cada vez mais egoísmo que mata, cada vez mais seres humanos rejeitados e perseguidos por um “útero social” que não aceita filhos avisados e honestos. Como também se impõem ideais e princípios morais mal fundamentados, cuja aplicação pode destruir a vida de quem quer viver a sério.
A 2.ª leitura é tirada de uma carta demasiado dependente da tradição sacerdotal da cultura hebraica, difícil para a cultura actual e bastante discutível. O que interessa sublinhar é como Deus tornou sensível a sua “preocupação maternal”, suscitando um profeta que podia olhar os olhos de Deus (Actos dos Apóstolos 3,13-26), consciente de que a glória da justiça não vem sem sofrimento.
O evangelho refere a angústia de Jesus perante a ameaça crescente contra a sua vida. Mas o evangelista apressa-se a acrescentar que foi então que se sentiu a acção benéfica do “útero de Deus” – o Deus «pai e mãe», que também Jeremias (1.ª leitura) percepcionou e que nos entusiasma para pensar e lutar pelo mundo novo.
Porém, «o grão de trigo» ainda tinha que estar muito tempo escondido, germinando lentamente, até que a força do Espírito de Deus tornasse os seguidores do Cristo capazes de reconhecerem como ter a vida de Deus é apostar numa vida cheia de alegria “apesar de tudo”. Nesse tempo, como nos nossos dias, foi e é necessário um prolongado “segundo útero”, tanto mais necessário quanto mais órfãos nos sentimos.
Só ama “a sério” quem está disposto a dar a vida por quem ama (não fazem isso os pais, educadores e qualquer outro profissional “a sério”?) – e quem está empenhado na formação de «segundos úteros» para além dos «nove meses»…
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)
