Bento XVI quer cardeais promotores de comunhão e testemunhas do “amor de Cristo”

“A Igreja não existe para si mesma, não é o ponto de chegada, mas deve apontar para além de si, para o alto, acima de nós”, realço o Papa.

Bento XVI pediu aos 22 novos cardeais da Igreja Católica, incluindo o português D. Manuel Monteiro de Castro, que saibam criar “a comunhão entre as múltiplas diferenças” e testemunhem o “amor de Cristo”. “O facto de presidir na fé está inseparavelmente ligado à presidência no amor. Uma fé sem amor deixaria de ser uma fé cristã autêntica”, alertou no domingo passado. O Papa falava durante a missa a que presidiu na Basílica de São Pedro, com os membros do Colégio Cardinalício, um dia depois do quarto Consistório do seu pontificado.

“Uma fé egoísta seria uma fé não-verdadeira. Quem crê em Jesus Cristo e entra no dinamismo de amor que encontra a sua fonte na Eucaristia, descobre a verdadeira alegria e torna-se, por sua vez, capaz de viver segundo a lógica do dom”, observou.

Após sublinhar que “Deus não é solidão, mas amor glorioso”, Bento XVI destacou que aos cristãos “está confiado o dom deste amor” deve ser oferecido com o testemunho da própria vida. “Esta é de modo particular a vossa missão, venerados irmãos cardeais: testemunhar a alegria do amor de Cristo”, prosseguiu.

O departamento litúrgico optou por antecipar a celebração da festa da Cadeira de São Pedro (celebrada anualmente a 22 de fevereiro), assinalada em Roma já no século IV, para significar a unidade da Igreja, fundada sobre a figura do Papa.

A homilia de Bento XVI partiu deste momento do calendário litúrgico para uma reflexão sobre a Igreja e sobre o seu próprio ministério, utilizando como imagem o próprio conjunto escultórico do altar da Basílica.

“A grande cátedra de bronze contém dentro dela uma cadeira em madeira, do século IX, que foi considerada durante muito tempo a cátedra do apóstolo Pedro e, precisamente pelo seu alto valor simbólico, colocada neste altar monumental. Na realidade, exprime a presença permanente do Apóstolo no magistério dos seus sucessores”, explicou.

Para o atual Papa, “a Igreja não existe para si mesma, não é o ponto de chegada, mas deve apontar para além de si, para o alto, acima de nós”. “A este mundo que tende a fechar-se em si próprio, a Igreja tem a missão de o abrir para além de si mesmo e levar-lhe a luz que vem do Alto e sem a qual se tornaria inabitável”, precisou.

Bento XVI destacou, por outro lado, que “a Igreja não se autorregula, não confere a si mesma o seu próprio ordenamento, mas recebe-o da Palavra de Deus, que escuta na fé e procura compreender e viver”. Antes, aos novos cardeais, tinha pedido ainda “um suplemento de disponibilidade para Cristo e para a comunidade cristã inteira”.

“A nova dignidade que vos foi conferida pretende manifestar o apreço pelo vosso trabalho fiel na vinha do Senhor, homenagear as comunidades e nações donde provindes e de que sois dignos representantes na Igreja”, frisou.

Após a homilia, há um momento de oração em português, pedindo que “pela intercessão do Apóstolo Pedro, todos os membros do povo de Deus se comprometam no anúncio missionário do Evangelho e no testemunho da caridade”.

Porquê o barrete vermelho?

“É com este significado que se deve entender também a imposição do barrete vermelho. Aos novos Cardeais, é confiado o serviço do amor: amor a Deus, amor à sua Igreja, amor aos irmãos com dedicação absoluta e incondicional – se for necessário – até ao derramamento do sangue, como diz a fórmula para a imposição do barrete cardinalício e como indica a cor vermelha das vestes que trazem. Além disso, é-lhes pedido que sirvam a Igreja com amor e vigor, com a clareza e a sabedoria dos mestres, com a energia e a fortaleza dos pastores, com a fidelidade e a coragem dos mártires. Trata-se de ser servidores eminentes da Igreja, que encontra em Pedro o fundamento visível da unidade”. Bento XVI, na homilia da Missa de 18 de fevereiro, em que nomeou os cardeais

Dia inesquecível para D. Manuel Monteiro de Castro

O novo cardeal português, D. Manuel Monteiro de Castro, assumiu a emoção perante um “dia inesquecível”, após o Consistório que decorreu na Basílica de São Pedro, onde recebeu de Bento XVI o barrete e o anel cardinalícios.

O responsável falava durante um encontro com familiares, amigos, conterrâneos e antigos colegas, para além dos cardeais portugueses, D. José Saraiva Martins e D. José Policarpo, e do cardeal Rouco Varela, arcebispo de Madrid, capital espanhola, onde o novo cardeal foi núncio (embaixador da Santa Sé) entre 2000 e 2009.

O ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, afirmou aos participantes ser “uma honra” contar com um novo cardeal luso na Igreja Católica, sublinhando a “importância do percurso diplomático” de D. Manuel Monteiro de Castro.

Muitos dos presentes quiseram registar o momento com uma fotografia, ao lado do cardeal, que acabou por cantar juntamente com o grupo de escuteiros que veio da sua terra natal.