DOMINGOS CERQUEIRA
1. O artigo do professor Pedro Neto, publicado no Correio do Vouga de 26 de Janeiro passado, veio despertar em mim uma avalanche de recordações.
É verdade que também eu acho que nós, Igreja, somos uns parolos, que passamos a vida a oferecer a outra face, quando muitas vezes deveríamos pegar na chibata e ter a coragem de responder com as mesmas armas com que somos atacados. Acho que não devemos fugir do campo de batalha, mas que devemos entrar nele, com as “armas” que Cristo puser nas nossas mãos. Tenho passado a vida embrenhado nos caminhos do mundo, muitas vezes a cometer exageros que este desgraçado do meu feitio me leva a cometer. Mas acredito que nos momentos mais difíceis Cristo está sempre comigo e me perdoará sempre que passei das marcas.
2. A propósito de passarmos a vida a proceder de modo a parecermos uns parolos, veio-me à memória um episódio que valerá a pena contar, não sei se para minha condenação ou para minha absolvição. No tempo de D. Manuel de Almeida Trindade, andava um grupo de leigos a “pregar” pelas terras da Diocese. Numa paróquia, já na altura muitíssimo politizada (no mau sentido), estava eu e a Eneida [esposa], com total disponibilidade, a dar testemunho da nossa vida de cristãos. A certa altura fomos interrompidos por um grupo de jovens, mais arruaceiros do que interessados nas nossas palavras, que nos atiram com esta pedrada: “É muito bonito o que nos estão a dizer. Mas aqui na nossa terra, se nós vivermos como vocês estão a dizer que vivem, seriamos tidos como mansos”. A minha resposta, que ainda hoje não sei se foi inspirada, foi mais ou menos a seguinte: “Olhe, a si poderiam chamar de manso. Mas quero dizer-lhe que se a mim, por viver de acordo com os valores em que acredito, alguém me chamar manso, a minha resposta serão dois murros na cara”. Penso que aqueles jovens terão reconhecido que também há cristãos brutos e até malcriados como os que não são, e que são capazes de usar a mesma terminologia que eles usam. No fundo, há muitos cristãos que ainda procuram não ser nem se comportar como parolos. Penso que a Igreja continua a precisar dos leigos. É verdade que muitas vezes não parece. É verdade que algumas vezes a Igreja mais parece desconfiar dos leigos, ou muitas vezes mais parece ter medo que os leigos, com os seus exageros, deixem ficar mal a própria Igreja.
O concílio Vaticano II convenceu-me de que eu estou na Igreja não por ser tolerado, mas por direito próprio, e por isso tenho procurado, no mundo, dar testemunho de Cristo como membro desta Igreja em que acredito, porque acredito que é a Igreja de Cristo.
Nestes últimos tempos, ou porque fui afastado, ou porque me afastei, não tenho tido uma acção tão visível no seio da Igreja. Mas continua a ser exactamente a mesma a minha disposição de dar um testemunho total de Cristo, não como parolo ou como imbecil.
3. Reforço algumas das ideias do professor Pedro Neto ainda com a esperança de que um dia algumas se possam concretizar, apesar de vindas da capacidade imaginativa dos leigos.
Trabalhei alguns anos na área dos seguros. Fiz na altura a proposta para que fosse estudado o problema dos seguros da Diocese, e se tirasse alguma vantagem em criar um departamento que procurasse tirar proveito da gestão de todos esses seguros. Seria por certo um segurado apetitoso para qualquer seguradora. E haveria por certo grandes vantagens. Mas foi uma proposta que não teve qualquer seguimento.
Aqui há muitos anos, existia no Seminário de Calvão uma exploração agrícola dirigida por um sacerdote. Com a finalidade de o libertar para acções mais condizentes com a sua formação, um grupo de católicos, no qual me incluía, delineou uma proposta para melhor rentabilizar essa exploração. O grupo era constituído por um engenheiro agrónomo, por um industrial da área das rações e por um gestor. Estávamos por volta do ano de 1974. Fomos entregar o documento ao nosso Bispo, que o leu atentamente, e depois de um longo silêncio, comovidamente, nos pediu: “Deixem-me ser eu a resolver este problema”. Saímos completamente embatocados. Não envolvem estas palavras qualquer crítica a este Bispo, por quem nutro um enormíssimo respeito e uma muito grande saudade.
4. Uns anos depois, passei por uma experiência que me entusiasmou, e dei o que pude, da melhor forma de que fui capaz. Fui administrador do jornal diocesano Correio do Vouga durante uns anos, poucos. Em fins de 1997, fui procurado por um sacerdote que nos sondou acerca da possibilidade de nos encarregarmos da composição informática, arranjo gráfico, impressão e colocação no mercado de alguns livros que tencionava escrever. A partir daqui, e depois de ter falado com o responsável pela Livraria Diocesana e com outros sacerdotes, cheguei à conclusão de que tínhamos um enorme campo de acção à nossa frente. Publicações diocesanas e paroquiais, publicações particulares dos sacerdotes, a nossa privilegiada posição nas Câmaras Municipais, na Universidade de Aveiro e noutras escolas, mostrava um vasto campo de acção. E, juntamente com o Relatório e Contas de 1997, apresentámos a seguinte proposta: “De todas as conversas tidas com profissionais de vários sectores ligados a uma actividade desta natureza, e com alguns sacerdotes interessados, surgiu a ideia e o incentivo de criar uma empresa diocesana, que englobe o jornal Correio do Vouga, a Livraria Santa Joana e a “Vouga Editora”! com os sectores de publicidade comercial e de distribuição. Sabemos das grandes exigências, mas sabemos haver gente na Igreja capaz de levar para a frente uma ideia destas, se o Sr. Bispo a achar útil e oportuna”. Nunca cheguei a ter resposta a esta proposta. Sei apenas que, anos mais tarde, a ideia foi adoptada por pessoa por certo mais inteligente e apareceu qualquer coisa de semelhante, muito aquém do que era proposto.
5. Não sei já há quantos anos, por incumbência do meu pároco, participei em Fátima, num curso de dois ou três dias, sobre a inventariação dos bens da Igreja. Foram feitas propostas e foi apresentado material para dar início a este importante, urgente já na altura, e extremamente necessário, trabalho de inventariação. Não sei se por a proposta ter partido de um leigo, tudo ficou em águas de bacalhau, penso que até hoje.
E quantos mais exemplos de tentativas falhadas, umas vezes por falta de confiança nos leigos; outras para não nos dar protagonismo em assuntos importantes. O que é certo é que continuam a ser excepções os casos em que aparecem leigos em cargos de responsabilidade dentro da Igreja. E há muitos serviços para que os leigos têm obrigação de estar muito mais bem preparados do que os sacerdotes. E tão precisos e indispensáveis que os sacerdotes são para outras acções apostólicas. Até para aturarem leigos tão irreverentes como eu!
Agradeço as palavras escritas pelo professor Pedro Neto, que tantas coisas boas me fez recordar. Continuo a pensar que parolos, não; mas muito incómodos em cada lugar e em cada acção.
