A alimentação que fazemos vs alimentação que precisamos

Saúde A necessidade de procurar alimentos para garantir a sobrevivência surgiu com a pessoa humana. Esta ganhou consciência dessa necessidade quando sentiu fome pela primeira vez. Atualmente já não se come para responder a uma necessidade biológica mas, essencialmente, para satisfazer um hábito ou prazer. O ato de comer tornou-se num hábito social. Juntamo-nos para comer e comemos sempre que nos reunimos, independentemente das necessidades biológicas do organismo. É habitual nas nossas relações sermos pressionados para comer ou pressionarmos outros a fazê-lo. É um costume que vem de casa. Alguns pais incentivam os seus filhos a comer, sem respeitarem os limites nem as necessidades de cada um, ao ponto de os levar a cometer abusos de exagero, colocando em risco a saúde por estas más práticas.

Hoje comercializa-se uma vasta variedade de alimentos com fins nutritivos, havendo uma enorme diferença de qualidade entre eles. E as campanhas que são desenvolvidas nos meios de comunicação social, com o objetivo de aumentar o consumo alimentar, raramente são promovidas para o bem do consumidor, mas antes pelos interesses económicos de quem as promove. Recai a responsabilidade sobre cada um dos consumidores saber tomar a melhor opção. Ler a informação dos rótulos dos alimentos antes de efetuarmos a compra dos alimentos escolhidos parece-me uma atitude inteligente e responsável.

A mediocridade de vários produtos alimentares que a rede comercial nos impõe através de publicidade persuasiva exige do consumidor uma atenção permanente e um rigor nas suas opções. Muitos produtos alimentares são divulgados como sendo benéficos para a saúde, quando a maioria das pessoas sabe que é exatamente o contrário, por serem preparados com demasiada gordura, com doses excessivas de sal ou de açúcar, ou de outros condimentos prejudiciais à saúde do consumidor.

Nunca foi tão preciso fazermos uma aprendizagem específica para aprendermos a comer, o que se deve, quando, como e a quantidade de alimentos devemos comer.

O que devemos comer?

Devemos comer todos os alimentos considerados naturais e, sempre que possível, utilizá-los como a natureza nos oferece. Os alimentos que são passíveis de serem consumidos crus não devem ser cozinhados. Os alimentos que precisarem de ser confecionados deverão ser submetidos a essa preparação, de forma simples e adequada, sem se abusar da utilização das gorduras, do sal e da temperatura. A fruta e os vegetais tenros podem ser consumidos crus e, sempre que possível, com a pele, depois de serem cuidadosamente lavados.

O que devemos beber e em que quantidade?

Os líquidos merecem uma atenção muito especial, devido ao valor e à função que ocupam no organismo. A água deve ser a bebida de eleição de todas as pessoas e de todas as idades. Poderemos aguentar várias semanas sem ingerir alimentos, mas quanto aos líquidos, somente três ou quatro dias. A água é o principal elemento responsável pela depuração (limpeza) do organismo. A falta de líquidos no organismo compromete o funcionamento de todos os órgãos vitais, nomeadamente os rins, imprescindíveis no processo de eliminação das toxinas. Durante os dias de calor e em situações de infeções internas, aumenta mais ainda a necessidade de ingestão de água. Uma alimentação salgada, doce ou com gordura exige mais água no organismo. Por isso, é mais racional evitar as substâncias desidratantes do organismo (sal, açúcar e gordura), para não sermos confrontados com situações de desidratação e precisarmos de ingerir quantidades elevadas de água para minimizar essas anomalias. Uma alimentação saudável e equilibrada, onde predomine a fruta, os vegetais e os cereais integrais, numa pessoa com uma atividade de pouco esforço físico, não precisará de ingerir durante o dia mais de um litro e meio de água. Em casos excecionais, esta quantidade de água poderá revelar-se insuficiente, principalmente quando se faz exercício de grande esforço físico, quando está muito calor, ou durante alguns tratamentos farmacológicos.

Alguns dos sintomas de desidratação e de alerta para a necessidade de ingestão de mais água são a sensação de boca seca, ardor nos olhos, vértices dos lábios cortados, saliva mais espessa e alteração da cor e do volume da urina.

Quando devemos comer?

Devemos comer sempre que o organismo necessite de receber nutrientes. O momento adequado para comer é quando se sente fome. O apetite é o sinal natural que o próprio organismo nos dá para nos indicar essa carência. Quanto ao sintoma da sede é diferente. O ideal é que o organismo não precise de nos avisar através do sinal da sede que precisa de água. É bom que se coma somente quando sentirmos apetite, mas devemos beber com frequência ao longo de todo o dia, mesmo sem sede, de modo a não deixarmos baixar o nível hídrico do organismo para índices de desidratação. As desidratações são muito frequentes em crianças e pessoas idosas, principalmente durante as estações do ano mais quentes.

Uma questão relacionada com o tempo tem a ver com os intervalos entre as refeições. Uma refeição considerada completa, em termos quantitativos e qualitativamente precisa, em média, de cerca de três horas para ser digerida. Um lanche ou uma refeição intermédia não precisará de tanto tempo, metade do tempo chegará. Porém, cada pessoa deverá conhecer o grau de mobilidade do seu aparelho digestivo e procurar respeitá-lo. Não convém perder de referência do sintoma da fome, porque é esse sinal que nos informa que a digestão foi concluída e que chegou o momento de se fazer o reabastecimento alimentar.

Como devemos comer?

Devemos comer devagar, mastigar cuidadosamente os alimentos e insalivá-los suficientemente. A pressa e a mastigação deficiente podem comprometer a digestão e o aproveitamento dos nutrientes ingeridos. Sempre que seja possível, devemos escolher um ambiente tranquilo e um local arejado para fazermos as refeições. O hábito de se falar no decorrer da refeição não é uma prática salutar. É uma prática que não acontece em nenhum animal de outra espécie. Por exemplo, o cão não ladra, nem o gato mia enquanto comem. Os alimentos devem ser ingeridos pausadamente, promovendo pequeninas pausas. Durante as pequenas pausas podemos conversar. Contudo, essas pausas destinam-se à promoção da concentração e do domínio da emoção, elementos facilitadores da digestão. Pelo menos durante a mastigação dos alimentos, a conversação é de todo desaconselhada, por facilitar a ingestão de ar juntamente com os alimentos que se dirigem ao estômago, causando dilatação do estômago, imobilidade gástrica, aerofagia e incómodos digestivos graves.

Que quantidade de alimentos devemos ingerir?

É muito relativo. Contudo, devemos procurar ingerir uma quantidade de alimentos que garanta qualitativamente, a satisfação plena das necessidades nutritivas do organismo. É importante também a satisfação razoável do apetite. Por conseguinte, devemos comer até saciar confortavelmente o apetite. Contudo, não devemos centrar a nossa atenção somente na quantidade mas, acima de tudo, na qualidade e no equilíbrio da refeição. Estômago cheio e saciado, não é sinónimo de organismo nutrido e satisfeito. Daí a necessidade de conhecermos qualitativamente cada alimento e o que ele nos poderá fornecer, em termos de nutrientes. Uma refeição eficaz é aquela que responde qualitativamente às principais necessidades nutritivas do organismo, com um índice de toxicidade reduzido ou nulo (este será o tema do próximo texto).

Vamos tentar conhecer melhor os alimentos que ingerimos e aprender a comer de maneira saudável, para garantirmos não só mais anos mas, essencialmente, garantirmos mais vida aos anos, ou seja, melhor qualidade de vida.

José Carlos A. Costa