A pequena Li

Poço de Jacob – 107 Fulton Sheen, bispo norte-americano, precursor de programas de televisão ao serviço da Evangelização, e que morreu já há anos, conhecido pelas suas admiráveis conferências, algumas no YouTube, e autor de livros de uma doçura e profundidade comoventes, conta-nos que fazia sempre a Hora Santa. Significa estar uma hora diante do Santíssimo exposto, cada dia do ano, e, especialmente, segundo um pedido de Jesus a Margarida Maria Alacoque, em Paray Le Monial, em França, de quinta para sexta-feira, das 23h as 24h.

Com os inúmeros afazeres da sua vida pastoral, o padre, muitas vezes, mergulha num emaranhado de atividades e reuniões que o cansam e que o desviam do essencial, que é ser Homem de Oração. Os Bispos seguem a linha. O seu ardor apostólico fá-los agir, por vezes, até ao esgotamento. Bem entendia Jesus isso, quando se retirava com os discípulos para um sítio ermo para orar. Também para conviver com os colegas, para se formarem… Se não houver tempo longo e calmo para estar cara a cara com o mestre e encanto de nossas almas, caímos sob o peso da sonolência. A fraqueza invade-nos e deixamo-nos arrastar por mil tentações, quando não caímos nelas de facto…

Fulton Sheen era um bispo desses, que se gastava pela Igreja, ora aqui, ora ali, ora em muitos lugares quase ao mesmo tempo. Ainda não estávamos na era do telemóvel e do computador, senão… Um dia ele entendeu que o essencial estava por viver. Lembro–me de, num retiro em Roma, quando um Bispo da Coreia disse a 6000 padres de todo o mundo, em retiro, que, quando chegava a casa depois de um dia de apostolado e pastoral, cansadíssimo, entrava na sua capela e ficava ali, esquecido de tudo e só dizia: “Jesus, por favor, ama-me”… Isso impressionou-me até hoje. Pois Fulton Sheen leu um dia a história da pequena Li, que vivera talvez no Camboja. A menina queria muito comungar. Era pequenina. Um dia, as forças de guerrilha entraram na Igreja e mataram as pessoas, destruíram o templo e espalharam as hóstias consagradas pelo chão. Eram 30 hóstias. O padre escondeu-se durante um mês nas ruínas, pois a perseguição era feroz. Para surpresa sua, cada manhã a pequena Li vinha, devagarinho, ajoelhava-se e comia uma hóstia consagrada, levando a boca até ao chão. Isso ela repetiu durante os 30 dias, até à última hóstia. E ali ficava uma boa hora adorando o Senhor. No último dia, pois só faltava uma hóstia, ao comungar, escorregou numa madeira caída e chamou a atenção de um guarda, que entrando viu a menina e matou-a no meio de uma grande surra, para grande horror da testemunha.

Esta história correu mundo e quando Fulton Sheen a leu decidiu ser como a pequena Lia. Em nome de tantos como ela, dedicou uma hora de sua agenda sobrecarregada de compromissos à mais sublime das reuniões pastorais, que é estar a sós com a Cabeça da Igreja; Jesus Cristo, o único que, com o Seu Espírito verdadeiramente nos atrai. Já dizia Madre Teresa de Calcutá que, para um sacerdote dar frutos, o que mais importa é que faça, ao menos, uma hora de adoração seguida, por dia, como ponto privilegiado de sua agenda pastoral. Mas o mesmo se aplica para o chefe de família, para a dona de casa, para o trabalhador, para o jovem e para a criança.

Há muita gente que descobre em si essa veia adoradora e anseia, na cidade de Aveiro, por um espaço que lhe proporcione, olhar a Hóstia branca ali exposta, e deixar-se envolver pelo Sol radiante do Amor. Como a pequena Li, escondidos no silêncio da vida, só queremos poder estar… e mover muitos a estarem também. Como dizia Santa Teresa, “estando a sós, tratando de amizade, com quem sabemos que nos ama”.

Vitor Espadilha