A Árvore de Zaqueu A figura de João Baptista na liturgia e nas festas populares sempre me pareceram uma estranha aliança. A sua vida pessoal foi extremamente austera, os textos litúrgicos falam-nos de alegria e penitência, e a festa do povo – a figura central em todas as festas cristãs, pois foi pelo povo que Jesus morreu e ressuscitou – junta a antiquíssima celebração do Sol no máximo esplendor à memória do nascimento do maior entre todos os profetas antes de Cristo. Ligeiramente mais velho do que Jesus, viria a apontá-lo, com a sua mão rude e forte, como imagem perfeita do Sol divino.
João deixou marcas tão fortes nos seus discípulos, que eles se organizaram numa comunidade específica e que até viria, pela corrupção de alguns, a entrar em conflito com a comunidade cristã dos primeiros tempos, não aceitando que Jesus fosse considerado mais importante do que João. Este apresentador de Jesus quis enviar-lhe dois dos seus discípulos com a pergunta: «És Tu o que está para vir, ou devemos esperar outro?» (Lucas 7,19). João precisava de sentir e de dar a sentir aos outros que já estava presente aquele que viera anunciar. O profeta verdadeiro apenas ouve e transmite, com humildade e coragem, a palavra de Deus. Jesus mostrou, citando a Bíblia, que era bem ele o Cristo anunciado.
Logo a seguir, foi a vez de Jesus perguntar à multidão que o cercava: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Que fostes ver, então? Um homem vestido com roupas finas? Os que usam trajes sumptuosos vivem regaladamente e estão nos palácios dos reis. Que fostes ver, então? Um profeta? Sim, Eu vo-lo digo, e mais do que um profeta. É aquele de quem está escrito: Vou mandar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de ti» (Lucas 7,24-27).
João remata com chave de oiro o Antigo Testamento, e surge a novidade absolutamente extraordinária do tempo de Jesus (que é o sentido do versículo 28).
Novidade que João anunciou com a sua vida no deserto, a sós com Deus e sem a poluição ruidosa da ganância e do orgulho, e ao baptizar o próprio Jesus com o «baptismo de penitência».
Vem o Sol na sua força – temos que abandonar roupagens e atitudes inadequadas. É o que significa a palavra «penitência»: em hebraico é mudar de caminho, tornar atrás e, na esfera religiosa, voltar-se para Deus. O termo grego entrou na moda: metánoia é mudar de vida, de atitude; “fazer penitência” não é um ritual de sofrimento ou autopunição, teoricamente discutível e de resultados duvidosos. É algo de muito mais difícil: reconhecer que não estamos a seguir o caminho da justiça e que não bastam boas intenções.
No século III, Tertuliano chama à penitência um «baptismo trabalhoso». Trabalhamos para conquistar a alegria de Cristo, que acusava a hipocrisia da elite religiosa dos últimos tempos do Velho Testamento: quando orardes, quando derdes esmola, quando jejuardes… não o façais com ostentação para que os outros admirem a vossa “santidade”(!); fazei algo muito mais difícil: sede bons (Cfr. Mateus 6).
O menino da festa de hoje viria a ser o estafeta entre a velha e a nova aliança. Quando passou o testemunho, deixou-se apagar como o sol que vai perdendo importância, até que outro menino nasça no dia mais pequenino e cresça como um Sol sem ocaso, como se diz nas festas da Páscoa.
Quem viria a ser o menino de 24 de Junho? Um exemplo insuperável do que é vocação: não se prendendo com nada que fosse contra o espírito de Deus. É o menino que nos avisa como a alegria, as nossas festas, os nossos amores, o amor… são para levar “a sério”, como frutos que alimentam a humanidade sem o veneno do artificialismo, da superficialidade e dos jogos de poder que fazem apodrecer o melhor fruto. Virá a ser o adulto que morreu por denunciar os desvios dos poderosos. Ele vem brincar connosco, porque a própria liturgia devia ser uma festa e porque brincar a sério é sabermos as razões por que vale a pena brincar. Basta ler o “testemunho” que ele nos passou…
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)
