Cantar é mais do que rezar duas vezes

Claudine Pinheiro é uma das mais destacadas autoras e cantoras da música de inspiração cristã em Portugal. Com dois discos / livros lançados, “Água viva” (2004) e “Capaz de ti” (2008), a cantora portuense tem dado concertos-oração um pouco por todo o país. Na sua passagem recente por Aveiro, para um concerto na paróquia de Santa Joana, no dia 29 de Janeiro, foi entrevista pelo Correio do Vouga. Entrevista conduzida por Jorge Pies Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Como chegou até aqui, com dois discos de música de inspiração cristã e uma agenda cheia de concertos?

CLAUDINE PINHEIRO – Isto aconteceu quase de forma intuitiva. Costumo dizer que não fui eu que escolhi este caminho; o caminho é que me escolheu a mim. Comecei a cantar na catequese, num centro juvenil orientado pelos salesianos, no Colégio dos Órfãos, no Porto. Os salesianos privilegiam muito a música. Depois, o percurso foi normal: nas festas da catequese, no coro da Eucaristia, nos festivais do movimento juvenil salesiano… A música sempre instrumento de evangelização. Entretanto tomei conhecimento das músicas da Ir. Glenda (religiosa chilena das Irmãs da Consolação), através de um disco que a minha irmã me ofereceu. Achei as músicas tão interessantes que propus às Edições Salesianas fazer a edição das músicas cantadas em português. São músicas de inspiração bíblica. São tão bonitas e ajudavam-me tanto a rezar que achei que seria interessante passá-las para português. Fizemos a edição, com a devida autorização, e foi assim que nasceu o primeiro disco, em 2004, chamado “Água viva”.

Depois desse lançou “Capaz de ti”.

Sim, em 2008. Neste disco, a maior parte das músicas são originais, mas mantém-se sempre a inspiração bíblica das letras.

Os seus discos são sempre editados com um livro…

Sim, ambos saíram com um livro que têm as letras e os acordes. As Edições Salesianas acharam que seria interessante disponibilizar um livro pastoral, de evangelização. Assim, as músicas podem ser cantadas e utilizadas em grupos de jovens ou na animação de eucaristias. Para além disso, o livro tem esquemas de oração pessoal, para a partir das músicas as pessoas podem interiorizar a mensagem, e esquemas para momentos de oração de grupo.

Tem algum disco em preparação?

Ainda está a ser sonhado. Há de facto muita gente a pedir mais músicas, mas para já ainda não tive disponibilidade para me dedicar em concreto ao terceiro disco, até porque fui mãe recentemente.

Canta ou reza a música faz?

É música que se reza cantando. Como as letras são de inspiração bíblica, mais do que cantar, proclama-se a Palavra. É música que nos ajuda a rezar e a chegar à Palavra de Deus. O objectivo é ajudar as pessoas a rezarem através da música. A música é o meio que leva à Palavra de Deus. Escutamos o que Ele nos diz através dos textos inspirados. Tentamos ouvir o que Ele nos diz hoje.

Cantar é rezar duas vezes, como dizia santo Agostinho?

Penso que ele só errou no número de vezes. São mais. A minha experiência enquanto cristã é que através da música é muito mais fácil rezar e viver a Palavra de Deus. Quando conheci as músicas da Ir. Glenda, foi uma experiência tão forte que desejei dá-las a conhecer a outras pessoas.

No primeiro disco não havia temas originais. No segundo, quem são os autores?

Algumas canções são da minha autoria, quer nas letras quer nas melodias, mas conto com a colaboração de compositores salesianos e mesmo de outras pessoas e há alguns temas que são versões de músicas espanholas. Há várias sensibilidades, várias pessoas que colaboram identificando textos, que deixam que a Palavra de Deus os toque e que conseguem transformar textos em melodia.

Quem ou que grupos a influenciam? Quais os seus gostos musicais?

Tenho gostos ecléticos. Ouço sobretudo música pop. Gosto muita da Beyonce. Em termos nacionais, gosto muito dos Deolinda, da Ana Moura, fadista. Também gosto de Rui Veloso, e acho o Carlos Tê [autor de muitas das letras das músicas de Rui Veloso] um letrista fantástico.

Os seus espectáculos não são típicos concertos, mas antes concertos-oração, o que não é muito comum em Portugal…

O concerto-oração é um conceito que aprendi dos espanhóis. Mais do que vibrar pela música em si, vibramos pelas emoções e pensamentos que a música nos transmite, ou seja, o amor da Palavra de Deus.

Como têm sido os ecos em relação aos seus concertos?

Têm sido muito bons. Quando fiz a proposta do primeiro disco às Edições Salesianas, nunca foi com a intenção de fazer concertos-oração. Mas quando o primeiro CD saiu, as pessoas passaram a pedir-me as músicas ao vivo. Este é um caminho que estou a aprender a fazer porque nunca pensei fazê-lo nem sabia que se podia fazer. As pessoas continuam a pedir e a achar que os concertos-oração são oportunidades para se juntarem e rezar.

Já estive várias vezes na Diocese de Aveiro e tenho percorrido o país todo. Só não fui à Madeira por incompatibilidade de agenda. No ano passado tive de parar por causa de ter tido o bebé. Mas a média é dois ou três concertos por mês.

Fala-se cada vez mais de pop e rock cristão. A sua música insere-se nestas correntes?

Existe de facto esta corrente do pop–rock cristão. O Festival Jota [que em 2009 decorreu em São Jacinto] é sinal e ao mesmo tempo impulsionador disso mesmo. Mas não vejo a minha música como rock. É mais calma, apela mais a interioridade. Diria que é mais folk cristão, quase na linha de Mafalda Veiga, digamos, se assim for mais fácil para entender.

O que pensa do pop–rock e folk cristão?

Estas correntes estão a crescer. Há mais gente a compor e a dar concertos. O objectivo de todos é a evangelização. No fundo, todos queremos que as pessoas conheçam melhor a Palavra de Deus. Isto mostra que a Igreja está viva e está atenta às novas linguagens para chegar aos jovens e a todas as pessoas. É sinal de que está aí, pronta, continua atenta às novas formas e instrumentos para evangelizar.