Lectio Divina – 1 Ao longo de alguns números, vamos fazer neste jornal uma viagem pela tradição da lectio divina. Traduzindo para a nossa língua quer dizer leitura divina e refere-se este conceito a uma metodologia de leitura da Palavra de Deus que remonta na sua inspiração aos Padres da Igreja, mas encontra o seu método sistematizado no séc. XII d.C.
O que é a lectio divina?
Na prática, é uma forma organizada de ler a Palavra de Deus, de a rezar e de a levar à vida. É uma forma de leitura orante da Palavra de Deus (uma forma, mas não única!), que se centra no texto bíblico, individual ou em grupo, e depois segue alguns passos para a sua meditação, reflexão e actualização.
Este termo foi usado pela primeira vez, em grego, por Orígenes (238 d.C.), escrito numa carta a Gregório e aconselhando-o a preparar-se para a evangelização do Ponto (atual nordeste da Turquia) através da leitura e estudo da Palavra. No fundo, Orígenes foi o iniciador de uma forma nova de abordagem à Palavra de Deus no seio do cristianismo, ajudando os seus discípulos a LER, COMENTAR e MEDITAR os textos bíblicos. Mais tarde e com o tempo, os Padres da Igreja aprofundam esta forma e dão-lhe mais conteúdo. Será por isso no meio da espiritualidade patrística e monástica que a lectio divina encontrará ambiente para ser proposta particularmente como forma de ascese dos monges e de meditação comunitária.
A lectio divina é assim um modo de ler a Bíblia que é complementar ao estudo, mas que se baseia na fé e procura uma maior proximidade com Jesus Cristo. Não é por isso uma leitura qualquer, mas deve levar à oração. O seu aprofundamento leva a um progressivo conhecimento da nossa natureza espiritual e da vontade de Deus na nossa vida. No dizer do Cardeal Carlo Maria Martini, a lectio divina “não é absolutamente nada uma prática reservada a alguns fiéis mais empenhados ou a um grupo de especialistas da oração. Essa é uma realidade sem a qual nós não seremos autênticos cristãos num mundo secularizado. Este mundo pede personalidades contemplativas, atentas, críticas, corajosas. Isso pedirá de quando em quando escolhas novas e inéditas; pedirá atenções e particularidades que não vêm da rotina nem do senso comum, mas antes da escuta da palavra do Senhor e da perceção da ação misteriosa do Espírito Santo nos corações”.
P.e João Alves
