Poço de Jacob – 109 Nome da primeira mulher da criação, mãe de todos os viventes, primeira a pecar e primeira a ser perdoada. Imaculada na sua criação, deixou-se levar pelo desejo de ser como Deus. E enganou-se e foi enganada com seu marido, o Adão.

Se este nome corresponde a uma mulher ou a uma primeira comunidade feminina depois da hominização, pouco nos interessa. O facto é que ela é referência, e o pecado original aconteceu e a todos nos marcou. E o Batismo aí está para nos livrar dele. Se é género literário popular de uma narração bíblica, ligada a uma tradição que orientou a escrita de alguns textos do Pentateuco, tudo fica na especulação. Com interesse, mas sem solução evidente. Fica tudo no mundo da Fé.

A verdade é que a Nova Eva veio reparar, como o Novo Adão, segundo S. Paulo, os erros da primeira. Maria é obra-prima das mãos de Deus e fiel como membro da Igreja. Assumpta ao Céu, intercede por nós para chegarmos ao Céu.

Mas na minha mente eu tenho outra Eva. Nas nossas paróquias, todos os padres têm a experiência de gente muito forte na vida e na fé que os deixa mudos diante do seu testemunho.

A Eva de que falo é uma mulher jovem. Ficou viúva no passado dia 13 de maio. Fazia 35 anos de casada nesse dia. Como muitas mulheres, a harmonia de seu lar tão bem constituído foi alterada pelo AVC (acidente vascular cerebral) do Júlio, seu marido. Começam os cuidados, as intermináveis visitas ao hospital e a fisioterapia. O Júlio ora recuperava, ora piorava. Já conhecemos o historial, até na nossa família. A Eva sempre paciente. Cuidava, atenta e sacrificada. Mudou o ritmo da sua vida. Nada faltava ao Júlio.

Um dia ele quis confessar-se e depois o ministro extraordinário da Comunhão incluiu o Júlio nos quase 40 doentes daquele lugar. Ao sábado, Jesus Eucarístico visitava o Júlio. A esposa, que nunca faltava à Missa, mulher discreta que faz sem querer ser vista, rejubilou, pois há muito ele andava longe dos caminhos da fé que ela trilhava semanalmente. O Júlio piorou. O seu processo kenótico tirou-lhe a locomoção, mais tarde a voz, depois a visão e finalmente a consciência, até ao coma. Não lhe faltava tratamento, higiene, carinho, alimentação conveniente e adequada, mas Eva queria também que não lhe faltasse o Senhor e pediu ao pároco para poder levar a comunhão ao marido. Licença dada, o Júlio comungava várias vezes por semana, e, sem um gemido, foi vendo, serenamente, a morte a chegar. Eva sabia que Maria iria marcar a partida de seu marido com um sinal de predileção e viu-o partir, depois da unção dos enfermos, administrada no hospital, ali, ao seu lado, no dia 13 de maio deste ano.

Teve um funeral de rei. Eva proclamou a leitura da Missa de corpo presente. No dia seguinte, estava na Missa, na procissão de velas. A vida continua. Os netos, os filhos. O Júlio estava bem… Ela fechara os seus olhos ao som da oração. Essa fé de mulher forte, que repara com sua fidelidade os desvios da mãe Eva das origens e se vincula à Mãe Nova Eva Maria, que tanto alento lhe deu na doença longa de seu marido, ao longo de mais de cinco anos.

O luto de Eva é feito de saudade e serenidade, pois a cura do luto na fé é mais eficaz. É caso para dizer que por detrás de um grande Adão, está sempre uma grande Eva.

Vitor Espadilha