A Árvore de Zaqueu Até parece que S. Paulo atira para cima do Diabo as culpas pelo mal que lhe acontece. Mas nem Job o fez – esse herói dramático e lendário, cantado desde há mais de mil anos antes de Cristo (a redacção actual dos poemas que formam o Livro de Job é provavelmente de cerca de 500 anos a. C.). Neste livro maravilhoso, Job invectiva a Deus directamente, pedindo-lhe um sentido para as desgraças que caíram sobre ele e sobre as pessoas mais queridas e em geral para o sofrimento que se abate sobre os homens, independentemente da sua bondade ou do esforço por serem bons (reza a lenda que foi o Diabo quem desafiou Deus a pôr à prova a rectidão de Job). Job não fechou os ouvidos a Deus: e entendeu que é próprio de Deus não poder ser entendido pela nossa inteligência.
Muito se tem especulado sobre o que faria sofrer S. Paulo – desde a mais vulgar doença até a tentações de orgulho ou de desenfreados apetites sexuais. Afinal, nada que escape a um bom cristão. É cada vez maior o consenso dos peritos, que vêem nas queixas dele um estado de doença suficientemente desgastante para perturbar os arrojados planos de contactar todas as comunidades cristãs do século I. S. Paulo sente-se profundamente afectado na capacidade de acção. Mas vê, nessa experiência de dor, que Deus não nos ama só quando irradiamos saúde ou somos socialmente notáveis. Quando a gente se encontra na mó de baixo, é então que pode ver mais claramente como é crucial a sabedoria de transformar em energia positiva tanto o prazer como a dor.
Apresentar a Deus os nossos problemas é um grande acto de fé: é querer Deus como um amigo a toda a hora – mas Deus «só ajuda a quem se ajuda»: se nos desse todas as respostas, será que teríamos avançado no campo das artes e das ciências, da filosofia ou da teologia, da medicina ou da acção social e das próprias relações humanas? As nossas grandes inspirações, intuições e descobertas, o trabalho aturado (tantas vezes escondido)… devem muito ao estímulo do aguilhão da dor, da tristeza, da desilusão, e sobretudo de uma insaciável «fome e sede de justiça».
Ainda nos dias de hoje, a vida espiritual cristã é vista como um combate entre a «Bandeira de Jesus Cristo» e a «Bandeira de Satanás» (para grandes teólogos e pensadores, foi sob esta bandeira enganadora que se têm praticado os grandes genocídios da história). Temos que saber escolher. Não se pode jogar nos dois campos.
A Bandeira de Cristo só pode ser a do Bem para todos os homens: um bem-estar fortemente estruturado por aquela sabedoria que até suporta «bofetadas» – porque possui a melhor estratégia de vitória.
De bom grado atribuímos certas «bofetadas» a Satanás. Mas as mais insuportáveis são as que vêm de alguém que vive a nosso lado (também Jesus se queixou disso). Porém, quantas vezes não se tratará de comedidas e justas bofetadas vindas dos nossos «santos de casa»? É preciso cultivar a sabedoria que deixa «os santos de casa fazer milagres».
Todos nós, como Job e S. Paulo, somos escolhidos para ajudar os outros a descobrir o sentido da vida. Desperdiçamos muitas palavras sábias – porque não vêm de alguém com uma posição social “aceitável”, e sobretudo se são palavras que nos põem em cheque!
Mas o encanto pelo discurso vazio ou ineficaz de muitas «altas personalidades» (facilmente incapazes de ver e sentir a vida real) leva-nos a não reparar em muitos «profetas», que passam pela nossa casa e pela nossa rua. Esquecemos que Deus se revela particularmente nos humildes e naqueles que sofrem (e que nós até podemos julgar como castigados por Deus… ou por Satanás!). Porém, mais tarde ou mais cedo, «tropeçamos neles». Veremos neles a pedra de toque da sociedade justa? Reconheceremos, como lembra Ezequiel, que há sempre profetas entre nós?
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)
