Andrea Riccardi
Fundador da Comunidade de Santo Egídio
“Não há precedentes – disse o secretário de Estado –, nem mesmo nos regimes comunistas”. Neste domingo [27 de Junho], Bento XVI, numa carta a D. Léonard, presidente dos bispos belgas, disse palavras severas “por causa das surpreendentes e deploráveis modalidades com as quais foram conduzidas as investigações na catedral de Malines e na sede onde estava reunido o episcopado belga”.
O Papa fez chegar com muita rapidez a sua solidariedade aos bispos belgas “neste triste momento”. A pressão dos renomados posicionamentos mostra como a Santa Sé está convicta de que a atitude dos magistrados passou dos limites e que não se pode – como dizia Pio XI – “deixar que se zombe da Igreja”.
Nestes dias, porém, grande parte da imprensa belga parece não entender as reacções de Roma. As reacções vão desde a pergunta sobre o que o Vaticano tem a ver com as investigações belgas à denúncia da vontade de “encobrir” as responsabilidades do clero nos casos de pedofilia. São comentários que não têm em consideração o facto de a Igreja ser uma comunidade que, mesmo vivendo num Estado, não se esgota num destino nacional.
A presença do Papa, que a defende e a impulsiona à renovação, está nos cromossomas do catolicismo. Viu-se isso nos episódios da pedofilia em muitíssimas outras situações. A Igreja Católica é uma comunidade que não é definida pelas fronteiras nacionais. Bento XVI, na carta aos bispos belgas, falando do ordenamento civil, afirmou a necessidade do “respeito pela recíproca especificidade e autonomia”.
A Igreja tem a sua consistência social específica, com um ordenamento caracterizado pela sua autonomia, porque os seus fins não são nem os do Estado, nem os da sociedade civil. O artigo 7 da Constituição italiana diz: “O Estado e a Igreja Católica são, cada um na sua própria ordem, independentes e soberanos”. Esse tipo de afirmação não si-gnifica que a Igreja quer isentar os culpados à justiça, mas sim cooperar na sua autonomia. O Papa não quer “encobrir”. “Que a justiça faça o seu percurso” – deseja Bento XVI, na carta a D. Léonard.
Examinando as investigações-espectáculo à Conferência Episcopal belga, poder-se-ia falar de métodos “soviéticos”, se não viessem de um Estado cansado e em crise. O grande grupo de investigadores, que prendeu os bispos, apreendeu as suas agendas e seus tele-móveis, confiscou uma grande quantidade de papéis da Conferência, chegando até a procurar no túmulo do cardeal Mercier, na catedral, mostra, substancialmente – no método de intervenção –, que os bispos são considerados uma “cúpula” criminosa perigosa. O ministro da Justiça, De Clerck (católico), defendeu as investigações, res-pondendo às palavras de Bertone: “Os bispos foram tratados normalmente”.
Qual é a normalidade das relações entre o Estado e a Igreja Católica na Bélgica? Há, em suma, uma incompreensão entre uma parte da opinião belga e a Igreja. Sem dúvida, os casos de pedofilia aumentaram a incompreensão. Mas muito vem do processo profundo que atormenta o país. Acima de tudo, a Bélgica nasceu de um acordo entre católicos e liberais em 1830, que tornou o Estado independente dos francófonos e dos flamengos, todos católicos. A Igreja Católica foi uma grande “cola” num país em que, ao longo do século XIX, a comunidade flamenga teve sempre mais consciência da sua particularidade.
O cardeal Mercier, cujo túmulo foi visitado na procura de provas, um precursor do ecumenismo (com as conversas de Malines, provavelmente nos locais investigados), representou o símbolo da resistência moral do pequeno povo belga à ocupação alemã na I Guerra Mundial. De facto, a Igreja belga, ao longo das duas guerras mundiais, foi a alma de um país vexado. Hoje, a Conferência Episcopal é uma das poucas instituições que resistiu à separação da parte flamenga e da francófona.
A Bélgica despedaça-se progressivamente. Não é só um facto étnico e linguístico, mas algo profundo. O tratamento dado à Igreja mostra isso mesmo. No país, não há uma concordata, porque a Igreja nunca precisou dela, tendo a Bélgica nascido do primeiro acordo europeu entre católicos e liberais.
A Igreja tem uma grande história de acção e de amizade com a liberdade na Bélgica. Esse país foi um mito para os li-berais do século XIX (especialmente católicos), que agitavam o slogan: “Liberdade como na Bélgica”. A Bélgica está entre os fundadores da Comunidade Europeia. Mas são histórias distantes num país cansado, que desmonta as suas instituições.
Nas últimas décadas, a Igreja tornou-se mais silenciosa e recuada, não só por causa da secularização, mas também por causa do processo de resignação. Porém, representa, apesar das sombras, uma reserva de esperança num país em dificuldade. Porque a Bélgica precisa de esperança e de futuro.
Artigo publicado no jornal “Corriere della Sera”,
no dia 28 de Junho de 2010
