Turbulência

O novo ano letivo está em marcha. Carregado de dúvidas e dificuldades! Fruto de políticas avulsas, decisões mercantilistas, indefinição de rumos, relativismo de valores, “lutas” interesseiras… Muito esforço de seriedade de alguns, mas a rotina, o imobilismo, o egoísmo de muitos outros!

A par com isso, falta de transparência dos centros de decisão: que não publicam os custos do aluno na escola estatal, que alteram desenhos curriculares sem suportes didáticos adequados, que modificam cargas horárias, eliminam áreas curriculares…, sem justificações plausíveis.

A notícia não é nova. Mas deixa no ar uma lufada de frescura, um sinal de vontade de resolver os problemas, em vez de esperar sempre uma solução protecionista. Muitos estudantes, sobretudo do ensino superior, ocuparam as suas férias no trabalho da colheita de fruta, “que dá para pagar as propinas e ficar com algum para despesas pessoais”. E haveria seguramente muitas outras formas de trabalho, que poderiam colmatar estes gastos das famílias.

Só que, para muitos, é a noite e a praia, todo o verão, com gastos e sem proveitos! E, depois, a reclamação contínua de prestações sociais, os gastos no acessório deixando de parte o essencial.

Preocupação de muitos pais e encarregados de educação, quer na escolha da escola, quer na atenção à distribuição dos alunos pelas turmas (porque há turmas e turmas!). Mas o alheamento total de muitos outros, para quem a escola é o lugar de despejo das preocupações com os filhos.

Por outro lado, as instâncias superiores que impõem uma rede escolar inibidora da possibilidade de escolha, desequilibrada em favor da escola estatal; uma confusão total sobre o ensino profissional, afirmando a intenção de o dignificar como um caminho normal de escolaridade, proclamando ideias de orientação vocacional, mas deixando as escolas sem soluções imediatas, coartando a abertura da opções, sobretudo em início de prolongamento da obrigatoriedade de escolarização.

Desejos de subir a fasquia do sucesso escolar! Todavia, normas que contrariam, em absoluto esse ideal: aumento do número de alunos por turma – incompatível com uma relação pedagógica eficiente; marginalização ou restrição de vertentes educativas fundamentais para uma educação aberta e humanista – educação artística, desporto…

Temos de reconhecer que muitos diretores e direções de agrupamentos e de escolas não agrupadas, estatais ou particulares ou de iniciativa cooperativa, têm feito esforços titânicos para gerir recursos – materiais e humanos – que configurem uma boa oferta educativa. E esses mereciam uma reflexão mais abrangente e aprofundada, linhas de fundo mais consistentes (e menos “coloridas”), instrumentos jurídicos mais sóbrios, coerentes e realistas, por parte do governo, para que a educação possa sair do labirinto arriscado e improdutivo em que serpenteia.

Terá faltado a coragem de aceitar o que está bem, alterar o que é possível de forma consolidada e deixar aparecer também a criatividade que a autonomia é capaz de dar a este serviço ao futuro do país. E ainda outra falta de coragem: a de desmontar, de uma vez por todas, os interesses corporativistas que, há décadas, tomaram conta desta área fulcral da governação. E é imprescindível o empenho de todos nesta causa: famílias, escolas, autarquias, forças sociais (confissões religiosas incluídas).