Franz Reinisch

Poço de Jacob – 113 A boa consciência, dizem, é o melhor travesseiro que um homem pode ter. Sempre, na história da humanidade, existiram homens sem consciência. As suas vidas acarretaram, para muitos, dor e lágrimas. Alguns recuperaram a consciência, depois de um longo ou curto processo de conversão e autoconhecimento. Também a história está cheia de mártires da consciência, pessoas que desafiaram os poderes civis e religiosos de seu tempo para viverem o que entendiam como certo. Nem sempre é fácil saber-se o que é certo ou errado, pois o subjetivismo e nosso comodismo, hedonismo, orgulho e má formação enganam-nos muitas vezes.

Nem sempre os mártires de consciência o foram por motivos religiosos. Houve e há-os no campo da cultura, da política, das comunidades religiosas, por vezes optando aparentemente por realidades contrárias à Igreja ou ao que ela ensina em matéria disciplinar. Não é fácil seguir a consciência, pois ela clama sempre pela verdade de cada um e pela verdade em si mesma. E o nosso mundo, como tal, é um mundo de ilusões. Engana-nos sobre o valor do essencial, só pelo facto de ser matéria e nós sermos seres destinados ao invisível, que os nossos olhos não veem, mas a Fé nos aponta com segurança.

Franz Reinisch é pouco conhecido em muitos meios. Foi um sacerdote austríaco que morreu em Berlim no dia 21 de agosto de 1942. Nascera em 1903. Não tinha ainda 40 anos quando morreu. Alto, magro, elegante, vivera uma juventude de boémio até ao dia em que a ideia de ser padre se lhe atravessou no caminho. Depois de ter sido ordenado como padre diocesano, conheceu o florescente Movimento Apostólico de Schoenstatt, vinculado por essa altura à comunidade dos padres palotinos, à qual pertencia o P.e José Kentenich. Fez-se noviço dos palotinos. A vida corria bem até ao dia em que Hitler subiu ao poder e manifestou as suas terríveis intenções, já conhecidas por todos nós. Todos eram obrigados a jurar à bandeira nazista. O movimento nazista era o poder da época, pelo que a própria Igreja, antes de cair na conta do movimento de crimes operado sob essa ideologia, considerava que ao poder instituído se devia obediência como ao próprio Deus, como afirma S. Paulo numa das suas cartas. Os padres eram convocados para o serviço militar apesar da perseguição da Igreja, o que levou o P.e Kentenich e centenas de sacerdotes aos campos de concentração espalhados pela Europa, onde morriam, muitos de modo cruel e vítimas da sua luta pela verdade, contra o regime totalitário que se impunha à força.

Franz Reinisch foi um opositor ao nazismo. Em consciência, não podia jurar à bandeira de Hitler nem às suas ideias, pois considerava-o um criminoso e não via ali nenhum poder divino. Todos o tentaram persuadir de que estava errado, amigos, parentes, superiores religiosos, padres… Mas ele manteve-se firme, oferecendo a sua vida no Altar de Deus. Convocado para o serviço militar, recusou-se a servir Hitler embora respeitasse o exército alemão… E foi prisioneiro durante meses, no meio de enormes angústias, tendo por consolação apenas o seu amor à Eucaristia, que celebrava por vezes, clandestinamente, ao Santíssimo, que adorava escondido na sua cela, e Maria, a Mater Admirável de Schoenstatt no seu santuário.

Ler a sua vida interpela-nos diante de tantas covardias nossas no enfrentar do mundo em que a mentira, mesmo na TV, é o meio normal de os homens se relacionarem.

Afirmar a verdade ser fiel a princípios de vida exige grande maturidade e uma vinculação muito forte aos mais altos ideais, que o homem do nosso tempo está a perder, sobretudo por se desvincular de Deus.

Proliferam seitas e correntes pseudofilosóficas que garantem curas e felicidade e projetam o ser humano no desejo do imediato e do que lhe causa prazer. Reinisch também se sentia tentado a fazer como os outros, pois, afinal, o que se lhe pedia não era considerado, naquela altura, moralmente mal. Mas a sua consciência apontava a outros horizontes e a verdade venceu nele, fazendo com que fosse decapitado no mesmo mês em que morreu Edith Stein, noutro lado da Europa, entre tantos homens e mulheres gigantescos, católicos, protestantes, judeus… por serem fiéis a si próprios, ou na aceitação do inevitável.

Recomendo que busque saber mais sobre Reinisch, até porque em breve será notícia, visto que seu processo de beatificação corre veloz no Vaticano. A sua mensagem toca-nos no mais profundo de nós mesmos, na consciência.

Vitor Espadilha