Colaboração dos Leitores Obrigado, Senhor, por me teres proporcionado viver momentos tão ricos e engrandecedores. Também eu, com os meus 70 anos, pensava que o mundo estava desumanizado e que os valores de hoje não correspondiam aos de então. Contudo, testemunho o que vivi durante oito dias no hospital Infante D. Pedro, Aveiro, concretamente, no UCIC (Unidade Cuidados Intensivos de Cardiologia).
Tendo recorrido aos serviços deste hospital em estado bastante grave, fui recebido pelos profissionais das urgências com a normalidade que lhe é própria. Após o diagnóstico, de imediato me comunicaram que precisava de ficar internado. Dei por mim já num espaço com um ambiente de paz e tranquilidade, onde as vozes que de mim se abeiravam eram de uma melodia tal que já parecia o “céu” (como no-lo descreviam em pequenos). Eis que entro na noite, na noite mais longa da minha vida, pois os relógios pareciam ter parado… As dúvidas, incertezas, receios, medos… Confrontei-me com a minha própria mortalidade.
Nasce um novo dia, o relógio acelerou um pouco mais, os medos, receios, intranquilidades começam a dissipar-se, pois tinha à minha volta um “exército” de homens e mulheres, alguns ainda a fazer lembrar a adolescência (pelos seus rostos de juventude) que, de sorrisos nos lábios e um brilho no olhar, davam “o seu melhor” à ordem dos seus “comandantes”. Estes, seguros de si, decisões bem firmes, atuavam sem hesitações, aplicando os seus conhecimentos médicos, esquecendo as horas que junto do doente investiam, bem como o tempo que pertencia às suas famílias. Ao aperceber-me que todo este “exército” estava em minha defesa e na de todos os que viessem a necessitar deles, os meus receios esvaíram-se. Percebi que “há curas isentas de injeções e comprimidos mas de uma transformação da nossa alma”. Vivi então os momentos mais belos da minha vida, assistindo a gestos de tanta humanidade, dedicação, carinho e sabedoria para com todos e de igual modo. Apraz-me referir as atitudes para com um paciente, já conhecido nestes serviços (pela relação médico/doente) em que os seus problemas de saúde o afetavam psicologicamente e quando o médico se abeirava dele com uma verdadeira força na transmissão de ânimo e energia o doente dizia: “Sr. dr., eu já morri 5 vezes, esta noite… Eu tenho a doença daquele homem que andava com a cruz pelo mundo… Ajudem-me a dizer seu nome…” Respondiam-lhe então: “Quer dizer João Paulo ll?” “Isso… Isso”, dizia o doente.
Ali estava junto deste paciente o médico ou a enfermeira ou o assistente operacional a acalmá-lo com uma dedicação e carinho como se o estivessem a embalar. O doente já mais sereno relatava a Deus aquilo que, efetivamente, sentia. “Obrigado, Senhor, pelos homens bons que há no mundo que ainda conseguem olhar para este corpo que se transforma lentamente num monstro”.
Agora sim, valeu a pena ter 70 anos e ter oportunidade de dizer bem alto que o mundo não está totalmente desumanizado. Obrigado, Senhor, por me teres ensinado a tirar da doença uma lição de vida.
Quero expressar todo o meu carinho e respeito por toda esta equipa de médicos, enfermeiros, assistentes operacionais e outros que trabalham nestes serviços com um verdadeiro sentido de vocação e sobretudo de missão profissional e humana.
Acácio Gonçalves
