Poço de Jacob – 42 Nos inícios da vida de Chiara Lubich, fundadora dos Focolares, diz ela que as bombas da guerra caíam à sua volta e ela se interrogava por que tem tudo de terminar em ruínas e esquecimento e se existe alguma coisa que uma bomba nunca possa destruir… E ouviu a resposta no meio daquele ruído infernal da guerra: Sim, só Deus. Sentiu-se livre e leve. “Só Deus” também foi o lema de vida de um jovem engenheiro que, na época anterior à guerra civil espanhola, Deus chamou para um convento de clausura, a Trapa de San Isidro, em Palência, Espanha. O Papa canonizou-o em 2009. Morreu jovem. O seu nome: Rafael Arnaiz. O seu lema de vida: “Só Deus”. E assim teve de viver no meio de contrariedades e de uma doença que o fazia estar mais vezes no hospital do que no convento. Mas aí se encontrava só com este Deus que teceu a vida dele numa forma de consagração que o fez ser monge na clínica de doentes.
“Só Deus”, cantava Teresa de Ávila, a santa, como dizem os espanhóis, que nos disse, tão poética e com tanta rea-lidade: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda… Só Deus basta”.
Uma jovem italiana morreu há poucos anos de um cancro que lhe cortou os sonhos de juventude. Chamava-se Chiara Luce. Também seguiu a Lubich e na sua vida pautou-se em viver só de Deus, com um cancro que ela abraçou como presente de Deus, a ponto se ter preparado para o seu funeral como se fosse o dia do seu casamento. Estão todos na Internet…
Andamos enganados, quando acha-mos que a realização humana está exclusivamente no curso terminado, no emprego encontrado e bem renumerado, no carro topo de gama bem comprado e na jóia reluzente bem mostrada. Enganamo-nos todos, quando achamos que ter um milhão de amigos nos enche, quando quem encontra um verdadeiro já encontrou um tesouro, ou que o tapete da fama e das honras do mundo nos fazem luzir como estrelas no céu da sociedade. Enganam-nos os do mundo VIP quando ostentam óscares e êxitos que encobrem vidas decepadas pela desilusão e escondidas e afogadas em garrafas de álcool e fumo de drogas.
Se o homem não tem um ideal na vida e um destino a seguir, então nada é e nada vale.
Mas o seu destino, diz a Bíblia, é só um: a vida eterna. O caminho também é só um: a santidade, que é a vocação primeira e maior de todos os baptizados. O segredo também é só um: só Deus basta. Não exclui a matéria que nos rodeia e as exigências da vida social e política, mas supera tudo o que há.
Dizia alguém com graça e verdade que o ideal é algo que nunca se alcança, mas vai à nossa frente mostrando-nos o caminho. Tentamos agarrá-lo e ele está à vista, mas longe. É a dinâmica do Poço de Jacob: Cristo promete água viva à samaritana, mas ela não a encontrará naquele poço. E a que Cristo lhe der nunca a saciará plenamente. Só Deus… mas, assim, na naturalidade da vida, num doar-se gota a gota conforme se respira e se descobre no silêncio e abandono da oração contemplativa. Este ideal fez Santa Teresa dizer também: “Alma, busca-me em ti e busca-te em mim”.
Os santos mostram-nos o seu caminho. A sua exemplaridade não é para ser imitada, mas para nos estimular a viver, do nosso jeito, esse ideal que está na essência de todo o nosso ser. Que aprendamos a viver só de Deus. Quer vivamos, quer morramos… façamo-lo para o Senhor… e basta!
P.e Vitor Espadilha
