Escolas católicas querem manter qualidade apesar dos cortes

Educação As escolas católicas têm menos turmas e menos financiamento. “Navegam à vista”, mas querem manter qualidade do ensino.

As escolas católicas da área da diocese de Aveiro têm vindo a perder turmas, devido aos cortes nos contratos de associação, mas continuam a ser responsáveis pelo ensino de mais de três mil crianças e jovens.

No Colégio de Nossa Senhora da Apresentação, em Calvão, as aulas iniciaram com 36 turmas do ensino regular, quando em 2011/12 foram 38 e em 2010/11 haviam sido 39. No Colégio de Nossa Senhora de Assunção, das Irmãs de S. José de Cluny, em Anadia, há contrato de associação para 18 turmas, do 6.º ao 12.º, quando noutros tempos chegaram a ser 33 as turmas financiadas pelo Estado. Nas turmas do primeiro ciclo do ensino básico e do 5.º ano, os pais pagam uma mensalidade de 215 euros, no máximo, mas dependente do IRS, pelo que há famílias a pagar 50 euros/mês, conforme informa a diretora pedagógica, Ir. Idalina de Jesus Faneca. “Os pais pagam o que podem e o colégio faz um esforço grande para apoiar as famílias”, realça a religiosa que há sete anos dirige esta escola.

No Colégio Salesiano de S. João Bosco, em Mogofores, perdeu-se uma turma do ano passado para este ano. Agora são 9, todas com contrato de associação, o que permite aos 187 alunos do 5.º ao 9.º ano frequentarem o colégio sem qualquer mensalidade para os pais. É a mais pequena das quatro escolas católicas, o que de alguma forma permite um acompanhamento mais próximo dos alunos. Por outro lado, este colégio e o de Anadia estão ameaçados pela nova Escola Secundária de Anadia, cuja construção pela Parque Escolar está parada. É público que terá capacidades que só serão aproveitadas na totalidade se se for buscar alunos às duas escolas não estatais do concelho. A este propósito, Dário Tavares, diretor pedagógico dos salesianos, afirma: “A parte de cimento já está construída, mas está parada. Entretanto, a parte informática já foi comprada e está na escola antiga. Quando chegar a hora de utilização, os computadores já estarão totalmente desatualizados”.

No Colégio do Frei Gil-IPSB, em Bustos, há 38 turmas com contrato de associação, do 5.º ao 12.º ano, e quatro turmas com contrato simples, do 1.º ao 4.º ano, uma por ano, pagando os pais uma mensalidade que pode ir até aos 150 euros, dependendo dos rendimentos. Nesta escola, segundo revela o presidente do Instituto de Promoção Social da Bairrada, João Dias da Silva, houve despedimentos de 10 professores dos perto de 100 que a escola tinha. A gestão é feita como a “navegação à vista”, diz João Dias da Silva, devido aos sucessivos cortes.

P.e Querubim Silva, diretor do colégio diocesano de Calvão e presidente da APEC, dá conta de como a sua escola vive com a austeridade geral e a que foi imposta pela revisão nos contratos de associação: “A austeridade surgiu logo em janeiro de 2011. Iniciou-se com a redução de vencimentos para o equivalente ao horário mínimo (22 horas); foram reduzidas drasticamente as horas de cargos, tiveram de ser dispensados alguns professores; alguns quadros procuraram outras saídas; implementou-se uma racionalização apertada de bens e serviços; desenvolveram-se pequenas iniciativas de angariação de fundos, com a iniciativa e colaboração da Associação de Pais e um grupo de Antigos Alunos”. No ano que agora começa, houve mais “reajustes”, em virtude da “contração da carga horária em alguns anos, da revisão dos desenhos curriculares e do aumento do número de alunos por turma”. “Apesar disso, alargámos as horas de cargos, mantivemos os três psicólogos no Colégio, faremos desdobramento, no secundário, em disciplinas mais relevantes… Vamos «navegar com água pelo queixo», para melhorar a qualidade e alcançar maior alegria”, remata P.e Querubim Silva.

Recorde-se que em dezembro de 2010, com o ano letivo em pleno curso, o governo reduziu os pagamentos por turma de 114 mil euros para 85 mil. Falou-se, depois, em nova descida, para os 80 mil euros por turma, mas tal não se verificou. Já no corte no número de turmas não se voltou atrás e este tem vindo a dar-se. Apesar dos protestos das associações de ensino particular e cooperativo, incluindo a Associação Portuguesa de Escolas Católicas (APEC), o Estado ainda não revelou quanto gasta por aluno no ensino público, o que seria um elemento relevante para esclarecer qual ensino é mais barato, se o particular e cooperativo se o estatal.

J.P.F.

Lemas das escolas católicas

Educação com valores

Se algo distingue as escolas de inspiração cristã, não é, obviamente, a matéria das aulas, mas os valores que a comunidade escolar assume. “Comunidade escolar” quer dizer direção da escola, professores, funcionários não docentes, alunos e mesmo as famílias. Uma ronda pelas quatro escolas católicas do ensino básico e secundário permite constatar isso mesmo.

O lema educativo do Colégio Salesiano de Mogofores é “Sou protagonista… na aprendizagem, no amor, na fé!” O diretor da escola, P.e José A. Fernandes, escreve à comunidade escolar: “Com a bênção especial de S. João Bosco”, que visitou Mogofores, “assumo a responsabilidade de ser protagonista, isto é, com medida alta: aprender, amar e viver a minha fé”.

Ao lado, em Famalicão, Anadia, o Colégio de Nossa Senhora da Assunção escolheu um mais comprido: “Hoje, construímos o amanhã! Eu acredito: Em Deus – enquanto criador e senhor da vida; no Homem – enquanto imagem e semelhança de Deus, dignificando a história, a ciência, a arte, a cultura; em Mim – enquanto ser único, precioso, irrepetível e insubstituível, construtor da civilização do amor”. Como símbolo, escolheu-se a flor Dente-de-Leão, “exatamente por ser a flor que solta as sementes que vão dando vida à natureza, ao ser humano”, lê-se num documento de linhas orientadoras para 2012/13.

No Colégio Diocesano de Calvão, o lema é “Ensinar e aprender: melhor qualidade, maior alegria”.

Por último, no Colégio do Frei Gil, em Bustos, nunca se esquece o lema do fundador, “Amor, Trabalho, Sacrifício”, nas neste ano que se inicia o lema é “mais verde”: “Escola sustentável, Escola com rosto para a comunidade”.