Procuramos sempre a verdade e o interesse pela história de Jesus, na humildade e fragilidade que sabemos que as nossas convicções a esse nível histórico têm, mas na certeza que em Jesus Cristo se encontra a nossa confiança e a nossa esperança.
A pergunta colocada como título resulta da recente apresentação de um papiro onde consta a afirmação “Jesus disse-lhes: minha mulher…”. Muita da nossa comunicação social relançou a polémica questão acerca do casamento de Jesus, não tendo ainda tido provas credíveis para o afirmar, encontrando assim neste papiro, quem sabe, uma dessas ansiadas evidências.
1. Jesus de Nazaré sempre foi, na história recente, figura polémica, sobretudo na tentativa de apresentação de novas provas que desmontem muitas das afirmações dos cristãos católicos. Recordemos, na última década, a discussão nascida com o livro “O Código Da Vinci” sobre as origens do cristianismo, uma possível ligação a Maria Madalena e com a existência de uma filha; as publicações que encheram as estantes das livrarias com as mais variadas teses; a afirmada descoberta do túmulo de Jesus que suscitou a realização de um documentário famoso; o encobrimento da Igreja de um Evangelho de Maria Madalena etc. Em cada polémica levantada sempre se conseguiram encontrar algumas tentativas de fraude, histórias sem verosimilhança e, no meio de tudo, um grande desafio à formação cristã, ao conhecimento da cultura bíblica.
2. Esta descoberta não afirma, como disse a investigadora, que Jesus fosse casado ou tivesse mulher, mas apenas relança a discussão sobre o tema. Em janeiro de 2013 será lançado um estudo mais extenso sobre o assunto em parceria com uma professora de religião.
3. A afirmação que Jesus não era casado baseia-se nas fontes mais antigas que conhecemos. Os evangelhos inspirados que nos chegaram e as cartas assim como a tradição da Igreja sempre o afirmaram, ainda que sem dar demasiada relevância ao facto. A afirmação que Jesus teria uma mulher, sendo identificada habitualmente Maria Madalena como essa, apenas é vista de forma não declarada no “Evangelho de Maria”, papiro do séc. III e claramente de influência de um cristianismo gnóstico (corrente herética), e agora neste fragmento, sobre o qual ainda não sabemos a que tipo de obra, de género literário e que contexto corresponde, sabendo-se apenas que é do séc. IV.
4. Penso que o que se sabe é tão pouco e tão pouco credível para a história de Jesus que julgo ser um abuso afirmar-se, com ligeireza, que Jesus pode ter sido casado. O peso que a história da redação dos evangelhos evidencia e que a Tradição da Igreja procurou manter não é o mesmo que o de um relato que não se sabe ao certo o que é.
5. Sob o ponto de vista da fé da Igreja, o Mistério da Salvação não depende desta realidade histórica de Jesus, ainda que haja curiosidade humana em se saber. O celibato dos padres e dos bispos, ainda que encontre em Jesus Cristo uma referência e uma configuração, não nasce da condição civil de Jesus, se era ou não casado.
6. E se fosse mesmo casado? Não mudava nada a nossa confissão de fé, mas apenas (e com alguma tragédia para muitos, estou certo) uma convicção que nos vinha da tradição da Igreja e que nos obrigaria a repensar algumas de entre muitas afirmações que vamos fazendo acerca da vida de Jesus e de Maria e que andam muito entre a irrealidade e o mito. Apesar de termos elementos que na história da redação se apresentam mais fortes para continuar a afirmar o estado de “solteiro” de Jesus de Nazaré, não são argumentos absolutos e eternos e não nos devemos espantar se um dia houver uma afirmação contrária que mereça credibilidade.
Como cristãos, procuramos sempre a verdade e o interesse pela história de Jesus, na humildade e fragilidade que sabemos que as nossas convicções a esse nível histórico têm, mas na certeza que em Jesus Cristo, Encarnado, Morto e Ressuscitado se encontra a nossa confiança e a nossa esperança.
João Alves
Padre. Professor-Tutor de Cristologia no ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro)
O papiro da polémica
* O papiro foi relevado pela historiadora Karen King, da Universidade de Harvard (EUA), que o terá recebido em 2010 de um colecionador de papiros que, por sua vez, o comprou a um professor de egiptologia alemão em 1997.
* Mede cerca de 8 por 4 centímetros.
* A sua origem remonta ao séc. IV da era cristã.
* Está escrito em copta antigo (língua usada no Egipto).
* O texto está cortado, de ambos os lados, mas dá para ler, na quarta e quinta linhas: “Jesus disse-lhes: A minha mulher” e “ela pode ser minha discípula”.
* Karen King tem sublinhado que “Isto não quer dizer que Jesus, o homem real, tenha sido casado”, mas que havia controvérsia sobre este assunto na época em que surgiu o papiro.
* A descoberta foi anunciada oficialmente no congresso em Roma, no dia 19 de setembro, e recebeu críticas de diversos peritos quanto à autenticidade e quanto à sintaxe do próprio texto. Até ao início do próximo ano será feito um estudo mais apurado sobre a idade e autenticidade do documento.
J.P.F.
