Carlo Maria Martini (1927-2012)

Arcebispo emérito de Milão foi um homem “atento a todas as situações”, em particular “as mais difíceis”, disse o Papa.

Faleceu no dia 31 de agosto o cardeal Carlo Maria Martini, de 85 anos, após um agravamento do seu estado de saúde. Na mensagem enviada para o funeral, que juntou mais de cem mil pessoas na segunda-feira passada, Bento XVI recordou o arcebispo emérito de Milão como um homem “atento a todas as situações”, em particular “as mais difíceis” e destacou o “espírito de caridade pastoral profunda” do cardeal jesuíta, que se fez “próximo, com amor, de quem se encontrava no desânimo, na pobreza e no sofrimento”. “Um homem de Deus, que não somente estudou a Sagrada Escritura, mas a amou intensamente, fez dela luz para a sua vida, a fim de que tudo fosse para a maior glória de Deus”. “Foi capaz de ensinar aos fiéis e àqueles que estão à procura da verdade que a única Palavra digna de ser ouvida, acolhida e seguida é a de Deus, porque indica a todos o caminho da verdade e do amor”, prossegue a mensagem de Bento XVI.

D. Carlo Maria Martini, jesuíta, nascido em Turim (norte de Itália), no dia 15 de fevereiro de 1927, foi arcebispo de Milão, a maior diocese da Europa, entre 1980 e 2002, tendo depois passado alguns anos em Jerusalém antes de regressar à Itália, em 2008, devido à progressão da doença de Parkinson.

Foi reitor da Universidade Pontifícia Gregoriana, em Roma, após ter dirigido o Instituto Pontifício Bíblico, tendo sido o único católico a integrar o comité ecuménico internacional que preparou a nova edição grega do Novo Testamento, como destaca a biografia oficial disponibilizada pelo Vaticano. Foi eleito por João Paulo II para liderar a Arquidiocese de Milão, a 29 de dezembro de 1979, e ordenado bispo a 6 de janeiro do ano seguinte, no Vaticano; o mesmo Papa polaco criou-o cardeal em fevereiro de 1983.

Entre as iniciativas que levou a cabo nesta diocese destacaram-se a ‘Escola da Palavra’, para aproximar os leigos da Bíblia, e a ‘Cátedra dos não crentes’, uma série de encontros para pessoas “em busca da verdade”. Entre 1987 e 1993 foi presidente do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE). O cardeal italiano recebeu o prémio Príncipe das Astúrias em Ciências Sociais em 2000.

D. Carlo Maria Martini foi autor de vários livros sobre temas bíblicos e de espiritualidade, geralmente resultantes das suas preleções, para além da obra ‘Em Que Crê Quem Não Crê?’ (em português na Gráfica de Coimbra), uma troca de cartas com o autor e intelectual italiano Umberto Eco. A última obra assinada pelo cardeal, ‘Il Vescovo’ (“O Bispo”), deixa como conselho aos responsáveis pelas dioceses que apostem “na formação interior, no gosto e no fascínio pela Sagrada Escritura”, apresentando as “motivações positivas” do “agir segundo o Evangelho”.

J.P.F. / Ecclesia

testemunho

O cristão convicto

e o bispo pastor

Morreu uma das maiores figuras do episcopado católico da atualidade, o Cardeal Carlo Martini, arcebispo emérito de Milão. Conheci-o no Sínodo dos Bispos sobre a Família, em 1980. Era, então, bispo há poucos meses. Voltamos a encontrar-nos nos sínodos da Europa e vivi, de muito perto, a sua amizade, durante os cinco anos em que representei os bispos portugueses no Conselho das Conferências Episcopais da Europa, a que ele presidia por eleição livre. Impressionava pela sua simplicidade, cultura, clarividência, coragem. Vivia o Vaticano II a sério e nele se inspirava nas suas intervenções públicas e nos seus escritos, sempre apreciados pelo indiscutível valor e clarividência.

Muito amado do seu povo, não o era dos círculos eclesiásticos romanos, como eu mesmo pude verificar. A sua coragem, serena e lúcida, bulia com a gente votada ao carreirismo eclesiástico ou que optava por uma Igreja que não fizesse ondas. Temia-se nestes círculos que ele fosse o sucessor de João Paulo II, que por ele tinha grande admiração e estima, tendo-lhe confiado tarefas difíceis, como servir de intermediário de reconciliação da Igreja Católica com o Patriarca ortodoxo Alexis, de Moscovo, que sempre se negara a receber o Papa.

Biblista insigne, multiplicou as suas iniciativas pastorais para que o povo de Milão ganhasse amor à Palavra de Deus. Quis, depois de emérito, passar os últimos anos da sua vida em Jerusalém, para rezar, como dizia, e continuar a estudar. A saúde precária, passado tempo, obrigou-o a regressar à Itália.

Era um bispo avançado, mas não demagogo. Nunca procurava o seu prestígio, mas apenas que a verdade do Evangelho conduzisse a Igreja. Intervinha sempre, em sínodos e simpósios, com uma lucidez e coragem invulgar, sem outra razão que dar um contributo livre de reflexão.

Fundou a chamada “Cátedra dos não crentes”, encontros cíclicos com gente a que Igreja não chegava nunca, e foram famosos os seus diálogos com Umberto Eco.

Posso dizer, com muita simplicidade, que foi das pessoas da Igreja das que mais me marcaram e com quem mais aprendi. Muito poderia recordar e contar. Deixei já esse testemunho de gratidão no meu livro “Pedaços de vida que geram vida”. Assim expressava o muito que lhe devo. É grande a sua obra publicada, de ordem bíblica, espiritual, pastoral. Com o testemunho da sua vida, resta-nos ainda este rico legado. Sempre o recordarei como um cristão convicto, um bispo pastor, de grande amor e fidelidade à Igreja, como um amigo.

António Marcelino,

bispo emérito de Aveiro