Não foi um debate. Foi um esclarecimento e uma partilha sobre os recasados na Igreja Católica. E um sinal de que é preciso fazer mais.
O que se pode esperar de um encontro promovido por leigos para falar de divorciados e recasados face à Igreja católica que enche por completo o salão nobre da Câmara Municipal de Aveiro num sábado à noite? À partida, que o assunto não morra ali. A adesão mostrou que a questão interessa. E por isso o grupo de leigos que organizou a iniciativa criou um e-mail e uma página no Facebook (recasados.aveiro@gmail.com; www.facebook.com/Recasados) para que continue a partilha, o desabafo, o possível acompanhamento por casais católicos.
No encontro da noite de 29 de setembro ficou patente que o casamento, ou antes, a união entre homem e mulher, na sociedade portuguesa, sofreu uma grande transformação. Para referir apenas alguns dos números que Teresa Borges apresentou, com base nos dados do Instituto Nacional de Estatística, veja-se que entre 1995 e 2011, os casamentos de natureza católica passaram de 60% (do total de casamentos) para 30%. No mesmo período, ao número absoluto de casamentos em que ambos eram solteiros caiu de 58 mil para 25 mil (números aproximados) enquanto a percentagem de casamentos em que um dos nubentes já fora casado mais que duplicou, de 12% para 28%, e o número de pessoas em união de facto praticamente duplicou para as mais de 300 mil em 2011.
Como vê a Igreja esta realidade de haver cada vez mais católicos recasados? “Abandonados, não!”, respondeu D. António Marcelino à questão colocada pelo moderador, o professor Carlos Borrego. “A Igreja abre hoje caminhos de compreensão e integração aos recasados”, explicou, mas houve um tempo em que foram “maltratados”, “quando não tinham funeral religioso” e lhes era negada a visita pascal, por exemplo. A ideia era que “deviam ter sanções”. Desde há algumas décadas – a grande referência é sempre o documento “Familiaris Consortio”, sobre a família cristã, de João Paulo II, em 1981, após um sínodo sobre a família em que D. António Marcelino também participou – reafirma-se a disciplina de não dar a comunhão eucarística aos recasados (os divorciados que não partem para nova união podem recebê-la), devido ao carácter indissolúvel do sacramento do matrimónio, ao mesmo tempo que se insiste no acolhimento destas pessoas nas estruturas, serviços e celebrações da Igreja. “Temos na Igreja muita gente divorciada nos serviços pastorais”, disse o bispo emérito, recusando o afunilamento do problema na questão da comunhão, “como se a graça de Deus pudesse atuar só pelo sacramento [da comunhão]”. E acrescentou: “Se reduzirmos tudo aos sacramentos, grande parte da Igreja não se pode salvar. «A caridade apaga a multidão dos pecados», diz a Bíblia”.
D. António Marcelino afirmou que “muita coisa mudou”, mas deu a entender que gostaria que mudasse ainda mais ao afirmar que o problema estava para ser discutido quando João Paulo II morreu e ao referir o exemplo dos cristãos ortodoxos, que também defendem a indissolubilidade do casamento: “Quando morre o casamento, passados dois anos da separação, pode-se fazer um segundo casamento”, porque “sobre a lei deve perdurar a misericórdia divina”. Na sua intervenção, defendeu, como há muito tem dito, que “mais de 50% dos casamentos são nulos [ou seja, não chegam a acontecer] porque as pessoas não têm consciência do que estão a fazer”, o que está patente na típica afirmação dos jovens casais: “Se não der, vamos para outra”. Por outro lado, afirmou que “não é séria” a resposta daqueles que dizem aos recasados “se ninguém te conhece, comunga”, ao mesmo tempo que realçou o casamento como uma “vocação pessoal” em que “a fidelidade é o fundamento do amor” – e não o contrário. Observou ainda que na celebração do casamento as prioridades estão desfocadas quando “se preparam os fotógrafos, marca-se o restaurante”, mas “esquece-se a celebração” e “ignora-se que a aliança que se usa é sinal de união e fidelidade”.
No final do encontro, antes de os casais organizadores revelarem que poderão surgir no “futuro próximo” outras ações do género, D. António Francisco agradeceu “a ajuda na reflexão sobre esta realidade dolorosa”, afirmou a necessidade de “acolher na diferença” e realçou que “vale a pena falar aos jovens da importância da família e do amor”.
Entretanto, na “página dos recasados” do Facebook, por onde passou a divulgação do encontro, começaram a surgir comentários sobre a iniciativa. Num deles, P.e Georgino Rocha escreveu o que se afigura como um resumo desta questão na Igreja católica e que certamente pode qualificar não só ao encontro como a pastoral diocesana dos recasados: “Muito se andou, mas o caminho está ainda no início”.
J.P.F.
Dores e desabafos
O período de interpelações da assembleia foi concorrido. Mais tempo houvesse, mais partilhas e perguntas teriam surgido. Registam-se algumas. Uma senhora, leitora na sua paróquia, divorciada há 18 anos devido a violência doméstica, partilhou a dor por não comungar e por ainda lhe apontarem que é divorciada: “Queria sentir-me bem na comunidade, mas dizem-me que não sou igual”.
Um professor universitário, remetendo para os alunos com que lida e para a sua filha, olhada com desconfiança por casar pela Igreja, defendeu que hoje não é o divórcio/recasamento que a Igreja deve discutir mas o casamento em si, que é “uma absoluta raridade”.
Uma senhora, também professora, “limpa de mágoas” para dar o seu testemunho, falou da dificuldade em ver o seu primeiro casamento anulado (demorou nove anos) e do afastamento de uma equipa de casais católicos e da comunhão, “quando mais precisava de comungar”.
Um leigo confessou-se algo incomodado, nesta questão, com “a simpatia dos papas, a solicitude da Igreja… unicamente”. “Isso não chega”, rematou. “Passem aos atos”.
Um padre chamou a atenção para a preparação para o casamento, e questionou a formação dos professores de Educação Moral e Religiosa Católica para o efeito, enquanto um jornalista, regressado à prática dominical na segunda união, falou da realidade timorense, que acompanhou, onde muitas pessoas, unidas mas sem casamento católico, são assíduas à comunhão, com o natural conhecimento dos responsáveis das comunidades.
