Futilidades

Poço de Jacob – 122 Na carta de S. Paulo aos Efésios 4,17, vemos que ele diz que o cristão não deve ser como o pagão que vive segundo a futilidade dos seus pensamentos. Não sei se é correto chamar, hoje, pagã a uma pessoa, pois a Sagrada Escritura diz que onde houver um homem que tema a Deus, Deus o ama… E o Vaticano II faz questão de dizer que os vestígios de Deus estão em toda a parte. Pagão foi, durante séculos, “o que não professava a minha fé”. Assim eram pagãos os romanos em relação aos judeus, os judeus em relação aos cristãos, e o Islão chama infiéis aos que não são muçulmanos… E assim surgiram e se conservaram, muito bem, as guerras fratricidas da história das religiões e dos povos.

Pensar e crer diferente, ou dizer que não crê, será paganismo? Há discussões… E Deus não dorme, pois também está na pluralidade. No entanto, podemos dizer que a futilidade do pensamento é mais do que ter uma vida fútil. S. Paulo sublinha que fútil é o “homem velho”, que precisa de se transformar interiormente. E isso só pode acontecer de duas maneiras: Limpar a mente… Transformação da mente, diz ele, e ser homem novo, ou seja, fortificar a fé.

O Homem Novo para uma nova comunidade só pode existir se for o homem total, integral. E isso significa que mundo natural e mundo sobrenatural devem estar em equilíbrio e harmonia dentro e fora dele, na mente, na psicologia, na afetividade e nas atitudes da moralidade e animada pelos princípios. S. Paulo sublinha que, no homem que vence a futilidade, a inteligência e a fé estão de braços dados, pois, inteligência sem fé leva ao racionalismo e à vida sem sentido, mas fé sem inteligência que a forme leva ao fanatismo, filho da ignorância e até filho da maldade, que também é animada pelo demónio. Por isso, fútil pode ser o dito pagão ou ateu, mas também o cristão batizado, o homem que não sai da Igreja e reza todas as devoções havidas e por haver, o padre, o bispo, qualquer um de nós.

Só a transformação da mente nos pode conduzir a sermos Homens Novos à imagem de Jesus, e só esse homem novo pode distinguir, discernir o que é bom, o que é útil e o que é agradável a Deus e aos homens, como S. Paulo sublinha noutro texto de outra carta com afirmações semelhantes a esta.

É interessante notar que a inteligência animada pela fé e a fé iluminada pela inteligência acreditam no milagre, mas sabem que, normalmente, a ação de Deus se exerce no mundo não de modo direto, mas através de causas segundas. Deus usa os seus instrumentos. E nós podemos ser, também, instrumentos colaboradores dele.

No deserto, os judeus queriam pão. Deus deu-lhes o maná. Caído do Céu milagrosamente? Não! Era apenas a secreção matinal de uma planta do deserto. E assim Ele alimentou o seu Povo. Pediram codornizes. Caíram frangos assados do Céu? Não! Deus serviu-se da migração das aves. Ave cansada não voa. E o Povo teve carne no deserto. Abriu o mar? Criou o homem com seu corpo atlético como um adónis grego? Sabemos que se serviu da evolução, dos acidentes geográficos, das vitórias nas batalhas… E tudo atribuíram a Deus, como também Ele hoje continua a falar pelas circunstâncias boas ou más da vida, à espera que saibamos fazer a leitura de cada coisa, na certeza de que, como diz o Cura D’Ars, não devemos procurar de onde vêm as cruzes, pois elas vêm todas de Deus. A dor, a alegria, o cancro, aquele acidente, aquele êxito, aquela viagem, aquele prémio, aquele louvor ou crítica… tudo nos pode ajudar a ouvir Deus falar. Só é preciso uma coisa: Renovar-nos pela transformação espiritual de nossa mente para sabermos o que é bom, o que é agradável e o que é perfeito. Numa expressão, Homem Novo. Ou em duas palavras: Fé e razão, bem alinhadas na nossa personalidade humana e cristã, para lermos a vida, com os nossos olhos, mas com os de Deus também.

Vitor Espadilha