Um novo rumo na vida da Igreja

A Constituição pastoral sobre “A Igreja no mudo contemporâneo” (GS) foi o último documento votado e logo promulgado por Paulo VI, no dia 7 de dezembro de 1965, véspera do encerramento do Concílio. Neste documento conciliar marca-se um rumo novo na vida da Igreja, até então bastante alheia à caminhada do mundo, quando não mesmo em oposição a ele.

Neste contexto, podemos perceber as tensões, dentro e fora da aula conciliar, o tempo de acerto do documento a ser votado, a difícil sintonia das diversas correntes de opinião. Ainda persistia em muitas mentalidades eclesiásticas o conceito de que o mundo era um dos inimigos da alma. A modernidade não gozava de favor da instituição eclesial e, por esta oposição e desconfiança, foram-se acumulando problemas que tinham como origem a difícil aceitação mútua, sem qualquer tentativa de diálogo. A Igreja, ao longo da história, passou por diversas fases: fermento novo na sociedade humana (primeiros séculos); tentativa patrocinada pelo imperador Constantino de que todo o mundo fosse Igreja (até à Reforma protestante); oposição declarada (a partir do século XVI até ao Concílio). Foi, então, que João XXIII quis, pelo Concílio, que a Igreja voltasse de novo às suas origens para que fosse, pela força do Evangelho testemunhado, um novo fermento renovador na sociedade

No longo período da oposição, permanecendo embora grandes espaços de tradicionalismo religioso de sabor medieval, muitos problemas se agravaram, e, praticamente, o diálogo com o mundo tonou-se impossível. Os frutos da modernidade eram a secularidade e a emancipação e não se coadunavam com uma Igreja que se proclamava “sociedade perfeita”, com poder ético e decisório sobre a sociedade. Uma tal atitude rechaçava a cultura moderna e continuava a propor para a cultura, como único, o pensamento medieval escolástico. Por todo o lado foram então surgindo reações fortes e hostis a esta posição da Igreja. O mundo moderno tinha, como características conhecidas, que o fizeram reagir à posição da Igreja, a cultura da Ilustração, o liberalismo democrático, a revolução industrial e a emancipação operária. Onde dominava, pela sua influência, esta nova cultura, a Igreja, mesmo em nações tradicionalmente cristãs, era identificada com o poder absolutista e com a ligação do trono com o altar, passando a ser desprezada, e mesmo perseguida. São exemplos históricos a França, a Rússia, os Estados Unidos da América e a Espanha e mesmo Portugal. Por todo o lado, se foi implantando e impondo um estado político, republicano e laico. A incompreensão mútua foi crescendo ao longo do novo processo de secularização. A segunda metade do século XIX e o século XX são determinantes neste processo de apagamento programado da influência da Igreja na vida política e pública de uma nação.

A hierarquia eclesiástica, no pensamento de teólogos e historiadores, reagiu do pior modo, sobrecarregando a vida cristã com o seu poder e autoridade, com os efeitos inevitáveis do clericalismo que identifica Igreja com a hierarquia, a Igreja com o Estado pontifício, a romanidade da igreja com a cúria romana, e dá, ao direito canónico, um peso que reflete todo o seu pendor clerical.

Assim, chegamos ao Concílio, com um Papa, João XXIII, que, pelo seu conhecimento do mundo e da rutura existente entre a sociedade civil e a Igreja, não podia ficar indiferente, nem dar cobertura a uma política antievangélica e destruidora da comunidade eclesial. Corajosamente anuncia o Vaticano II como um concílio sem condenações. Tudo se elabora nesse sentido e, logo de princípio, se deseja que a GS seja eminentemente pastoral, ou seja, que marque um novo modo de agir, contrário ao que a Igreja vinha praticando, partindo da vida concreta das pessoas e da sociedade, e lendo esta à luz da fé. Queria-se uma constituição dirigida a todos os homens e mulheres do mundo, respeitando a cultura emergente e aberta ao diálogo. Não foi fácil a sua elaboração. Desde o conhecido Esquema XIII rejeitaram-se projetos, partiu-se o zero, multiplicaram as reuniões fora de horas, mas podemos afirmar que não se passou ao lado de nenhum dos grandes problemas. A reflexão era fundamental e não podia ficar pelo caminho. E não ficou.