Geografia espiritual

Poço de Jacob – 67 A Terra Santa foi dividida em dois reinos após a morte de Salomão. O reino do Norte, que se chamou Israel, e o do sul, que se chamou Judá. A capital deste era Jerusalém. Como em Portugal temos o Alentejo, o Algarve, o Minho… também ali o território corresponde às doze tribos de Israel, sendo que parte delas se estende pela Galileia. A Galileia é zona fértil, onde brota a cristalina água que forma o Jordão. Ali se cultivam frutas e legumes em abundância. Esta região caiu na mão do rei da Assíria uns 700 anos A.C. que fez uma troca de povos, de modo que naquela zona passaram a habitar povos com cultura e religião diferentes do reino do Sul, mais fiel às tradições bíblicas. Apesar de fértil, o Norte era visto com sentido pejorativo, como terra de trevas na relação com a Aliança e como sombria região de morte, como diz Isaías. Este profeta disse que ali brilharia uma grande Luz.

Quando lemos os Evangelhos, vemos que Jesus percorreu toda a Galileia e depois começou a subir para Jerusalém, onde consumou a sua acção redentora, pela morte e ressurreição. Esta é a sua geografia de vida. Ser galileu não era coisa bem vista. O povo era de dura cerviz. E Jesus não fez em Nazaré nenhum milagre.

Quando, visitando a Terra Santa, chagamos ao Monte Scopus e vemos Jerusalém, surgem em nós sentimentos indescritíveis de paz e alegria. Não é tanto a beleza da cidade, por si mesma magnífica, mas o estar ali, na cidade três vezes santa, que tanto nos diz do passado e do futuro de cada um de nós. Subir para Jerusalém adquire para o peregrino o mistério de estarmos a ensaiar a própria vida e a viver os passos de Jesus e de Maria.

Mas o facto de tanto se falar destes territórios é para nós uma indicação de um itinerário espiritual que nos interpela e comove. De facto a “Galileia dos Gentios” e terra de Zabulão e Neftali, povo que vivia nas trevas e na sombria região da morte, significa a nossa vida, o nosso espaço e o tempo de existir, onde vivemos as trevas da vida enquanto dor, luto, desânimo, desilusão, pecado, vergonha, trabalho, injustiça, doença, depressão, divórcio, marginalidade, medos, traumas, violações, assassinatos, prostituição, xenofobia e preconceitos, morte, tristeza, traição, infidelidade, rejeição, recalcamentos… É aí, neste emaranhado de circunstâncias, que Jesus vem viver.

Não era elogio dizer Jesus “de Nazaré”, pois de Nazaré não poderia surgir nada de bom, segundo disse alguém em relação a Jesus. Ser galileu era algo mal visto. Ser Maria “de Nazaré” não era de modo algum privilégio, mas era como ser de Magdala, terras e gentes mal queridas pelos povos da Judeia. A Pedro perguntam-lhe se também ele era galileu…

Mas foi aí, na Galileia, que Jesus viveu 33 anos, no mundo dos homens, na confusão humana, na miséria e trevas humanas. E foi a partir daí que nos levou, pouco a pouco, na sua vida e na narração evangélica, a subir a Jerusalém.

Jerusalém é o oposto à Galileia. “Terra de Paz”, como diz o nome, terra de amor, beleza, harmonia, fidelidade, festas, realização em plenitude, presença magnífica do divino. Aí Jesus não podia viver porque isto não é o vale de lágrimas dos homens. Jesus vai para Jerusalém e leva-nos com Ele para a Jerusalém do Céu, engalanada como noiva para o seu esposo, a cidade santa.

Este é o itinerário que nos leva a não perdermos a esperança enquanto residimos na Galileia: Uma Luz vai brilhar no fundo do vale e tu serás elevado às alturas da Jerusalém que vem também ao teu encontro, e cantaremos então: Que alegria quando me disseram «Vamos para a casa do senhor». Já pisam os nossos pés as tuas portas, Jerusalém, que brilhas no horizonte da minha vida de trevas e morte… Não me posso esquecer de ti e que se me pegue a língua ao paladar… Para ti vou, Jerusalém, com alegria e esperança, em busca da luz… Como diz a Bíblia, “em Jerusalém seremos consolados”.

P.e Vitor Espadilha