O Papa Bento XVI, como vem sendo hábito do Pastor Universal, propõe-nos um texto de reflexão e orientação de vida para a Quaresma. É sempre uma palavra esclarecedora e estimulante, para quantos desejam enveredar por um caminho de renovação. Sem deixar de acentuar aspectos permanentes dessa renovação espiritual, traz cada ano matizes novos, actualizando as interpelações evangélicas face aos momentos históricos.
Depois de fazer um interessante percurso pelos textos evangélicos de cada domingo, o Santo Padre fixa-se nessa actualização dos eternos convites evangélicos: o jejum, a esmola, a oração.
Começando pelo jejum, leva-nos a descobrir o seu significado religioso: uma mesa frugal, em ordem a “superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor”; e também, pela privação não apenas do supérfluo, “desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus no rosto de tantos irmãos nossos”.
A prática da esmola não é a sobranceria de quem dá para escravizar ou para se elevar; é antes o exercício da capacidade de partilha. A desenfreada ambição do «ter» leva o ser humano a esvaziar-se de sentido, a perder a noção da sua dignidade, a ficar cego face aos outros, a substituir Deus no seu coração: “Ninguém pode servir a dois senhores”… Um coração cheio de si e possuído pela idolatria dos bens, está impossibilitado de descobrir a riqueza de Deus como única fonte de vida. “A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia”.
No tempo da Quaresma é superabundante o manancial de Palavra de Deus que nos é servida. O convite é o de meditarmos e interiorizarmos essa Palavra, fazendo disso a melhor oração: de contemplação, de louvor, de intercessão… É a possibilidade de perceber a dimensão de eternidade que envolve a nossa vida, permitindo-nos ultrapassar a barreira do tempo, o qual nos leva apenas a um horizonte limitado, sem futuro. Assim, “na oração, encontramos tempo para Deus, para conhecer que «as suas palavras não passarão» (Cf. Mc.13,31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele «que ninguém nos poderá tirar» (Cf. Jo.16,22) e que nos abre à esperança que não desilude, à vida eterna”.
Mesa sóbria, partilha solidária, esperança ilimitada, são três pistas muito oportunas, para quem vive tempos de crise e dela quer sair com todos os que a sofrem, não com tranquilidades efémeras, mas com horizontes consistentes. Afinal, o Evangelho é sempre novo!
